Há cinco anos, em 17 de janeiro de 2021, o Brasil iniciou a vacinação contra a covid-19. A data marcou a aplicação da primeira dose no país pouco depois da Anvisa autorizar o uso emergencial de duas vacinas.
A primeira pessoa vacinada foi uma enfermeira paulista que havia participado dos testes clínicos da Coronavac. Na época, ela trabalhava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência no atendimento de doenças infectocontagiosas, que registrou mais de 40 mil atendimentos durante a pandemia.
A campanha nacional teve início no dia 18 de janeiro, com a distribuição inicial de 6 milhões de doses da Coronavac importadas da China e entregues pelo Instituto Butantan. Posteriormente, o Butantan passou a finalizar e envazar a vacina no Brasil a partir do insumo produzido pela Sinovac.
No dia 23 de janeiro chegaram as primeiras 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, trazidas da Índia pela Fiocruz. A fundação também adotou gradualmente a produção local da vacina.
A fase inicial da vacinação priorizou trabalhadores de saúde na linha de frente, idosos, pessoas com deficiência institucionalizadas e populações indígenas. O país enfrentava então o pico da variante Gama, com maior agressividade e letalidade que cepas anteriores.
O fornecimento restrito de doses retardou a expansão do programa. Em grandes cidades, como o Rio de Janeiro, pessoas entre 60 e 70 anos só foram imunizadas ao longo de março e abril de 2021.
Os efeitos da campanha, porém, tornaram-se visíveis em curto prazo. Relatórios do Observatório Covid-19 Brasil indicam queda acentuada nas hospitalizações e mortes entre idosos a partir de abril de 2021. Estudos estimam que, nos primeiros sete meses, a vacinação evitou cerca de 165 mil internações e 58 mil óbitos nessa faixa etária.
Com a entrada em operação das linhas de envase do Butantan e da Fiocruz e a compra de vacinas por empresas privadas, a oferta de doses cresceu significativamente. No primeiro ano da campanha foram aplicadas 339 milhões de doses, alcançando cerca de 84% da população.
Pesquisadores calculam que a vacinação impediu aproximadamente 74% dos casos graves e 82% das mortes previstas, o que corresponderia a mais de 300 mil vidas poupadas.
Estudos também apontam perdas evitáveis. O Observatório estimou que outras 104 mil hospitalizações e 47 mil mortes entre idosos poderiam ter sido evitadas se a campanha tivesse começado mais cedo. Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais concluiu que, com um início 40 dias antes — na mesma data do Reino Unido — mais doses e medidas de proteção, o país poderia ter evitado até 400 mil mortes, pouco mais da metade do total de aproximadamente 700 mil óbitos registrados.
Relatos individuais ilustram o impacto humano dos atrasos: muitas famílias perderam parentes que, em alguns casos, chegariam a ser vacinados semanas depois.
A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, em 2021, concluiu que houve “escassez” de doses atribuída à atuação do governo federal, o que teria contribuído para o aumento de casos e óbitos e favorecido a disseminação de novas variantes. Entre as evidências citadas pela comissão estava uma proposta da farmacêutica Pfizer, em agosto de 2020, oferecendo 1,5 milhão de doses para entrega ainda naquele ano, à qual o governo não teria respondido.
O relatório final da CPI apontou negligência na aquisição de imunizantes e atraso nas negociações, e sugeriu o indiciamento de 68 pessoas, entre elas o ex-presidente e ex-ministros da Saúde. O pedido de indiciamento foi arquivado a pedido do então procurador‑geral da República, em julho de 2022.
Posteriormente, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito na Polícia Federal para apurar os fatos levantados pela CPI.




