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terça-feira, janeiro 20, 2026

Esforço para produzir vacinas contra a Covid deixou legado para o SUS

No dia 8 de dezembro de 2020, menos de um ano após a primeira comunicação oficial sobre o novo coronavírus, a britânica Margaret Keenan tornou-se a primeira pessoa a receber uma vacina contra a Covid-19 fora de ensaios clínicos. O avanço veloz das vacinas apoiou‑se em plataformas tecnológicas já existentes, como vacinas de RNA e de vetor viral, desenvolvidas e testadas anteriormente.

No Brasil, o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio‑Manguinhos/Fiocruz) teve papel central na aquisição, produção e transferência de tecnologia da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca. A unidade entregou, ao todo, 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

A mobilização da Fiocruz começou ainda nos primeiros meses da pandemia. Em março de 2020, no mesmo mês em que a Organização Mundial da Saúde declarou a pandemia, Bio‑Manguinhos iniciou a produção de testes diagnósticos para o SARS‑CoV‑2. Paralelamente, equipes avaliaram vacinas em desenvolvimento para identificar opções viáveis de transferência de tecnologia ao Brasil.

As negociações com Oxford e AstraZeneca começaram em agosto de 2020 e exigiram adaptações institucionais, incluindo a criação de marcos jurídicos para transferência de tecnologia de um produto em desenvolvimento. A instituição redirecionou esforços e capacitação técnica para priorizar a chegada e a produção do imunizante. Também houve mobilização da sociedade civil para auxiliar na aquisição de equipamentos e insumos.

A primeira remessa de vacinas prontas da AstraZeneca chegou ao país em janeiro de 2021, com cerca de 2 milhões de doses, poucos dias após a autorização de uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A campanha de aplicação começou em 23 de janeiro. A partir de fevereiro de 2021, passou‑se a importar apenas o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), enquanto Bio‑Manguinhos assumiu envase, rotulagem e controle de qualidade em suas instalações.

Em fevereiro de 2022, a etapa final da transferência de tecnologia foi concluída com a produção do IFA em solo nacional, permitindo a distribuição de vacinas 100% produzidas no Brasil. A Anvisa acompanhou todo o processo regulatório e de qualidade.

Com o avanço da vacinação e a chegada de outras tecnologias, a produção da vacina por Bio‑Manguinhos foi reduzida ao longo da transição pós‑pandemia. Em 2021, o imunizante da Oxford/AstraZeneca foi o mais utilizado no país no ano de início da campanha, e estimativas de especialistas apontam que cerca de 300 mil vidas foram salvas apenas no primeiro ano de vacinação.

O trabalho realizado durante a crise deixou legado técnico e industrial para o Sistema Único de Saúde (SUS). A capacidade instalada e a experiência em transferência de tecnologia permitiram ao instituto ampliar pesquisas e desenvolver novos produtos. Entre as iniciativas em curso está a criação de uma terapia baseada em vetor viral para tratar a atrofia muscular espinhal (AME), doença rara cujo custo de medicamentos disponíveis pode chegar a R$ 7 milhões. Estudos clínicos autorizados pela Anvisa estão previstos para começar ainda este ano.

Também estão previstos para este ano os primeiros testes em humanos de uma vacina contra a Covid‑19 baseada em RNA mensageiro (mRNA), plataforma que já vinha sendo estudada no instituto para tratamentos oncológicos e que ganhou impulso com o desenvolvimento das vacinas de mRNA durante a pandemia. A produção nacional dessa tecnologia é vista como forma de reduzir custos e diminuir a dependência de fornecedores externos.

O desempenho de Bio‑Manguinhos durante a pandemia elevou sua projeção internacional. O laboratório foi selecionado como um dos seis centros de produção pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI) e designado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como hub regional para desenvolvimento de produtos com plataforma de mRNA. Como laboratório público, a instituição mantém foco em atender demandas de saúde pública e fortalecer a soberania sanitária regional.

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