Menos de duas semanas após firmar um acordo com o Mercosul, a União Europeia anunciou uma nova parceria comercial com a Índia durante a 16ª Cúpula Índia-UE, realizada em Nova Déli. O compromisso foi anunciado pelos líderes dos dois lados após negociações que duraram cerca de 18 anos.
O acordo prevê a criação de uma zona de livre comércio que abrange aproximadamente 2 bilhões de pessoas. A UE projeta dobrar suas exportações para a Índia até 2032, beneficiando cerca de 96% das exportações europeias com reduções tarifárias.
A Índia deve obter entrada preferencial para mais de 99% dos produtos que exporta à UE. Entre os setores citados como contemplados estão têxteis, vestuário, couro, calçados, produtos marinhos, joias e pedras preciosas, artesanato, bens de engenharia e automóveis.
Juntos, União Europeia e Índia representam cerca de um quarto do PIB mundial e um terço do comércio global. As trocas comerciais entre os dois alcançaram mais de 135 bilhões de dólares no ano fiscal encerrado em março de 2025.
A ratificação formal do acordo ainda depende de uma análise jurídica, que pode levar alguns meses. As partes esperam iniciar a implementação em cerca de um ano, caso o processo avance conforme o previsto.
Contexto geopolítico
A aproximação entre Europa e Índia ocorre em meio a relações tensas com os Estados Unidos. Nos últimos anos, medidas tarifárias e disputas comerciais impulsionadas pela administração dos EUA afetaram parceiros europeus. Entre os pontos de atrito estiveram ações sobre regulamentação de grandes empresas de tecnologia e episódios diplomáticos, como a controvérsia envolvendo a Groenlândia.
A Índia também foi alvo de medidas tarifárias dos EUA no último ano, quando foram aplicadas sobretaxas de 50% sobre parte de suas exportações, em uma tentativa de pressionar o país a reduzir compras de petróleo da Rússia. No âmbito multilateral, a presidência rotativa da Índia no BRICS e a realização da cúpula do grupo em 2026 colocam o país em posição de destaque nas dinâmicas Sul-Sul.
Relação com o Mercosul
O acordo com a Índia chega logo após a assinatura do tratado entre UE e Mercosul, concluído após 26 anos de negociações. O texto firmado com os países sul-americanos prevê a eliminação gradual de tarifas para mais de 90% do comércio bilateral, abrangendo bens industriais e agrícolas.
Mesmo assinado, o pacto UE-Mercosul precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu e pelos parlamentos de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O envio do tratado ao Tribunal de Justiça da União Europeia para avaliação jurídica pode atrasar a implementação por até dois anos. Existe a possibilidade de aplicação provisória caso o processo judicial se prolongue e os países sul-americanos já tenham concluído suas ratificações.
Com informações da Reuters e da RTP.




