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quinta-feira, março 5, 2026

Estudo revela que mulheres representam 90% dos cuidadores informais no Brasil

Mulheres dedicam, em média, 9,6 horas a mais por semana do que homens a tarefas domésticas e cuidados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2022, do IBGE. Esse excedente equivale a mais de mil horas anuais a trabalho não remunerado e socialmente invisível voltado ao cuidado de filhos, cônjuges e parentes.

Estudo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, majoritariamente filhas, esposas e netas, com idade média de 48 anos. O fenômeno, segundo a pesquisa, afeta a vida profissional e escolar de mulheres e meninas.

Em comparação internacional, há países com políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e na Dinamarca, assistentes domésticos e de serviços podem ser pagos por municípios. França, Áustria, Alemanha e Holanda custeiam parte desses serviços. Reino Unido e Irlanda preveem compensação pela perda de renda durante o período de assistência a familiar. A Espanha conta com uma lei de promoção da autonomia que inclui compensação econômica a cuidadores familiares.

No Brasil, foi instituída em final de 2024 a Política Nacional do Cuidado, ainda em processo de implementação.

Metodologia e perfil dos entrevistados
A pesquisa da PUCPR incluiu 18 entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e de Santa Catarina que cuidam de familiares idosos, doentes ou com deficiência.

Entre as entrevistadas, 68% eram filhas da pessoa cuidada, 21% esposas e 5% netas ou irmãs. A composição etária mostrou 43% entre 41 e 60 anos, 37% com mais de 60 anos e 22% entre 21 e 30 anos. Quanto à escolaridade, 58% concluíram o ensino fundamental, 11% o ensino médio e 30% o ensino superior.

No plano ocupacional, 32% eram agricultoras, 26% atuavam no mercado de trabalho formal, 26% eram aposentadas, 11% donas de casa e 5% estudantes. Sessenta e um por cento relataram ter deixado o trabalho para dedicar-se integralmente ao cuidado do familiar; esse desligamento ocorreu em todos os casos das agricultoras entrevistadas.

Consequências e condições de trabalho
A pesquisa descreve o cuidado como atividade contínua e extenuante, muitas vezes ocupando o tempo que seria destinado ao descanso e ao lazer. As entrevistadas relataram sensação de cansaço, solidão e desamparo, ausência de remuneração e de proteção previdenciária, além de colaboração familiar eventual ou insuficiente. Esses fatores contribuiriam para problemas de saúde física e mental e para a negligência do autocuidado.

Recomendações e propostas
O estudo aponta a necessidade de reconhecimento social e de compensação financeira pelo trabalho de cuidado, além da inclusão desse período nas regras de aposentadoria. Também sugere políticas públicas mais robustas e ações educativas para promover a divisão igualitária do trabalho doméstico entre meninos e meninas, visando mudança cultural de longo prazo.

A pesquisa destaca ainda a sobrecarga sobre a chamada “geração sanduíche”, composta por mulheres que conciliam trabalho formal, gestão doméstica e cuidado de filhos e idosos, e registra iniciativas judiciais recentes que, em alguns casos, têm determinado pagamento aos ex-maridos pelo tempo que a ex-companheira dedicou ao cuidado dos filhos.

Há exemplos regionais: no Uruguai, existe norma que permite aposentadoria antecipada para mulheres conforme número de filhos.

Autores
O estudo foi assinado por pesquisadores da PUCPR, entre eles Valquiria Elita Renk, Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia.

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