Diante do aumento expressivo de casos de chikungunya na Reserva Indígena de Dourados, uma força-tarefa inicia na próxima segunda-feira (9) um mutirão para eliminar criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença. A ação envolverá Governo do Estado, Prefeitura de Dourados, Prefeitura de Itaporã, Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) e lideranças das aldeias Jaguapiru e Bororó.
A responsabilidade pela prevenção e combate ao mosquito nas aldeias, bem como de atenção com a saúde primária é do Governo Federal, mas diante da gravidade do problema, o prefeito Marçal Filho determinou que a Secretaria Municipal de Saúde mobilizasse esforços para fazer enfrentamento à epidemia de chikungunya na Reserva Indígena.
A mobilização ocorre diante do aumento de casos e da confirmação da morte de uma mulher de 69 anos, moradora da aldeia Jaguapiru, vítima de complicações da chikungunya. Com histórico de diabetes e hipertensão, ela teve primeiros sintomas no dia 13 de fevereiro e foi a óbito no dia 26, sendo a doença detectada pelo laboratório Lacen, unidade de referência estadual da Secretaria de Estado de Saúde. O cenário acendeu alerta das autoridades de saúde, que temem a evolução para uma epidemia.
Na manhã desta sexta-feira (6), o secretário municipal de Saúde, Márcio Figueiredo, reuniu representantes de diversas instituições ligadas à saúde indígena, além do superintendente do Hospital Universitário da UFGD, Hermeto Macario Amin Paschoalick, médicos que atuam nas aldeias, agentes de endemias e lideranças indígenas. O encontro discutiu estratégias para conter o avanço da doença, considerada relativamente recente nas comunidades indígenas, mas que preocupa devido à intensidade dos sintomas e ao longo período de recuperação.
O secretário ressaltou que a situação exige atenção urgente das autoridades federais, principalmente porque a responsabilidade pela saúde indígena é compartilhada com órgãos do Governo Federal. Segundo ele, é fundamental ampliar o apoio para garantir atendimento rápido à população das aldeias. “O município está mobilizado e atuando como parceiro nesse enfrentamento, mas é fundamental que o Governo Federal também dê a devida atenção a esse cenário”, ressaltou. “Precisamos acelerar o atendimento às famílias que estão doentes e reforçar a estrutura de assistência nas aldeias. Para isso, é indispensável o apoio do Ministério da Saúde, por meio da Sesai e do Dsei, que têm responsabilidade direta pela saúde indígena”, alertou o secretário.
A prefeitura já havia realizado bloqueio químico nas aldeias Jaguapiru e Bororó por meio do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) e do Departamento de Vigilância em Saúde. Mesmo assim, os casos continuam aumentando, com relatos de famílias inteiras doentes e dificuldades de deslocamento até as unidades de saúde.
A partir de segunda-feira, agentes de endemias que atuam na área urbana de Dourados, junto com equipes do município de Itaporã e profissionais que já trabalham nas aldeias, farão visitas domiciliares para busca ativa de pacientes. A proposta é atender moradores que não conseguem chegar às unidades de saúde. Paralelamente, equipes da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos realizarão ações de limpeza geral nas comunidades, com foco na eliminação de possíveis criadouros do mosquito. O trabalho irá iniciar pelo Hospital da Missão Evangélica Caiuá.
NÚMEROS PREOCUPAM
Dados do Núcleo de Vigilância Epidemiológica apontam crescimento significativo das notificações de dengue e chikungunya nas aldeias em relação ao mesmo período do ano passado. Em Dourados, foram registrados 506 casos notificados de dengue, com 12 confirmações. Nas aldeias, foram 179 notificações e seis casos confirmados.
Já em relação à chikungunya, o município contabiliza 515 notificações, com 189 casos positivos. Somente nas aldeias Jaguapiru e Bororó foram 183 notificações e 99 confirmações. As autoridades acreditam que o número real pode ser maior, já que muitas famílias não procuraram atendimento médico. O avanço da doença tem sido mais intenso na aldeia Jaguapiru, mas já começa a atingir também a aldeia Bororó.
O Hospital da Missão Evangélica Caiuá, localizado na aldeia Jaguapiru, registrou forte aumento na procura por atendimento médico, chegando a realizar cerca de 130 atendimentos por dia. A maioria dos pacientes apresenta sintomas semelhantes, como dores intensas no corpo, nas articulações, dor de cabeça e náuseas.
Com a alta demanda, medicamentos utilizados para aliviar os sintomas começam a ficar escassos tanto no hospital quanto nos postos de saúde da reserva. A Secretaria Municipal de Saúde informou que irá reforçar imediatamente o fornecimento de medicamentos e buscar apoio do Governo do Estado.
Durante a reunião, o cacique Reinaldo Arévalo manifestou preocupação com a situação. Segundo ele, muitas famílias não conseguem se deslocar até as unidades de saúde e as equipes de ambulância da Sesai têm dificuldade para atender todos os chamados, sobretudo pela falta de combustível para atender todos os chamados.
O QUE É CHIKUNGUNYA
A chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo responsável pela transmissão da dengue e da zika. Os sintomas mais comuns incluem febre alta, dores intensas nas articulações, dores no corpo, dor de cabeça, náuseas, cansaço e manchas na pele.
Embora a maioria dos pacientes se recupere em algumas semanas, em muitos casos as dores articulares podem persistir por meses ou até anos. Há registros de pacientes que necessitam de acompanhamento e tratamento por até dois anos devido às complicações provocadas pela doença.
O tratamento é feito principalmente com medicamentos para aliviar os sintomas, hidratação e repouso, já que não existe um antiviral específico contra o vírus. Por isso, a principal forma de prevenção continua sendo a eliminação de locais com água parada, onde o mosquito se reproduz.




