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quinta-feira, março 26, 2026

Violência paralisa transporte e prejudica acesso à educação no Rio

Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, quase 190 mil estudantes da rede municipal do Rio de Janeiro tiveram rotas entre casa e escola interrompidas por violência, aponta o estudo Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro, divulgado pelo Unicef, pelo Instituto Fogo Cruzado e pelo Geni/UFF.

A pesquisa identificou 2.228 episódios de interrupção em modais de transporte usados pelos alunos no período. Quase metade desses eventos (49%) ocorreu em dias letivos e no horário escolar, definido pelo estudo entre 6h30 e 18h30.

As causas mais frequentes foram barricadas (32,4%), operações ou ações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas no local (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%). Cada interrupção durou, em média, sete horas; 25% dos episódios se estenderam por mais de 11 horas. Quando o bloqueio ocorreu em horário escolar, a duração média subiu para oito horas e 13 minutos, e mais da metade das ocorrências ultrapassou quatro horas, comprometendo turnos e impedindo chegada ou retorno dos estudantes.

O estudo diferencia dois tipos de percurso interrompido: o trajeto diário até a escola e a trajetória de vida dos estudantes, relacionando as interrupções a efeitos sobre frequência escolar, saúde mental e aprendizagem.

Das 4.008 unidades escolares ativas em 2024, cerca de 95% registraram ao menos uma interrupção de transporte nas imediações durante o intervalo analisado. A interrupção da mobilidade está mais concentrada em áreas marcadas por desigualdades urbanas e raciais.

O bairro da Penha, na zona norte, liderou o ranking de ocorrências com 633 eventos e o equivalente a 176 dias sem circulação de transporte público. Bangu (zona oeste) e Jacarepaguá (zona sudoeste) registraram, respectivamente, 175 e 161 eventos; Jacarepaguá acumulou 128 dias de interrupção e Bangu 45 dias no período. Considerando apenas período letivo e horário escolar, Penha somou 296 ocorrências e Jacarepaguá 108, totalizando cerca de 88 dias letivos de paralisação. Em contraste, 70 dos 166 bairros do município não registraram interrupções nesse mesmo período e horário.

O relatório classificou as escolas segundo níveis de risco, com base na frequência e intensidade das interrupções nas suas proximidades. Cerca de um quarto das matrículas — equivalente a 323.359 crianças e adolescentes — está vinculado a escolas de risco moderado, alto ou muito alto. Das mais de 4 mil unidades, 120 (2,9%) receberam classificação de risco alto ou muito alto. A zona norte concentra 71 dessas escolas (59,2%) e a zona oeste 48 (40%). A zona sudoeste ainda não estava oficialmente criada no período estudado.

O documento aponta que a combinação de barricadas e operações policiais torna a circulação imprevisível em diversos territórios, tornando recorrente a suspensão do transporte público. Como consequência, o acesso a serviços essenciais como educação, saúde e proteção fica comprometido, criando barreiras reais e emocionais à mobilidade cotidiana.

Entre as recomendações, o estudo defende ações voltadas à proteção de perímetros escolares e mudanças nas políticas de segurança pública, com o objetivo de reduzir a interrupção da mobilidade e mitigar seus efeitos sobre a educação e as oportunidades de mobilidade social das crianças e adolescentes.

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