34.4 C
Dourados
sábado, março 28, 2026

Guerra revela vulnerabilidade energética do Brasil, afirma ex-presidente da Petrobras

A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz provocam novo choque no mercado de petróleo e expõem a vulnerabilidade energética do Brasil, segundo avaliação do ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, em evento de lançamento do livro Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro, publicado pelo Ineep.

O conflito tem provocado perturbações na oferta de combustíveis e afetado também o mercado de gás, em razão de ataques a grandes produtores. Ao mesmo tempo, a região do Golfo Pérsico concentra projetos relevantes de expansão de refino, com destino principal das cargas para China e Índia. Outra mudança em curso é a utilização de moedas alternativas – houve relatos de passagem pelo Estreito de Ormuz condicionada ao pagamento em yuans –, o que pressiona o papel do dólar nas negociações internacionais.

Projeções de oferta para 2027 apontam para a entrada conjunta de Canadá, Guiana e Brasil, com potencial acréscimo de cerca de 1,2 milhão de barris por dia. Essa nova produção deve reconfigurar fluxos comerciais, favorecendo maior envio de óleo bruto para refinarias asiáticas.

No entanto, o Brasil enfrenta limitada capacidade de refino doméstico para suprir demanda interna, especialmente por diesel. Estimativas citadas indicam dependência externa de 20% a 30% do mercado de diesel. A expansão do parque de refino foi interrompida nas últimas décadas: planos da Petrobras contemplavam a construção de cinco refinarias, mas apenas uma foi concluída. Entre 1980 e 2014 o país não colocou em operação novas unidades de grande porte; a refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Pernambuco, foi inaugurada em 2014.

A deterioração da capacidade interna foi agravada por restrições impostas durante e após a Operação Lava Jato, além da atuação de multinacionais que historicamente participam da cadeia de distribuição no Brasil. No curto prazo, a construção de refinarias é limitada pela longa duração dos projetos — normalmente cerca de cinco anos — levando governos a adotarem medidas de ajuste por preços e importações.

A presença de importadoras no mercado aumentou desde meados da última década. Durante o governo de Michel Temer, foram autorizadas quase 300 empresas para importar derivados. Paralelamente, a Petrobras reduziu a carga de refino para níveis próximos de 50% da capacidade sob os governos Temer e Bolsonaro. Em 2023, com novo governo, as refinarias elevaram a operação para cerca de 93% da capacidade, patamar considerado próximo ao limite, mas ainda insuficiente para suprir a demanda doméstica. O mercado de importadores tende a operar conforme a relação entre preços internacionais e domésticos, favorecendo importações quando o preço externo está mais baixo.

O choque atual tem implicações também para a transição energética. No curto prazo, o petróleo e seus derivados continuam essenciais para o funcionamento econômico, sobretudo em setores como transporte e geração de energia. No entanto, episódios de ruptura de oferta podem acelerar, no médio e longo prazos, a busca por alternativas de baixo carbono.

Nesse contexto, o hidrogênio verde aparece como opção para decarbonizar setores industriais intensivos em emissões, como siderurgia, cimento, transporte pesado e aviação. Hoje, os maiores consumidores de hidrogênio são refinarias e empresas de fertilizantes. Para que o hidrogênio verde se torne competitivo em escala é necessário criar mercados de demanda, reduzir custos e instalar produção próxima aos centros de consumo, devido à complexidade do transporte da molécula.

Além disso, o hidrogênio pode ser matéria-prima para a produção de metanol e combustíveis sintéticos — gasolina, diesel e querosene de aviação — sem uso de petróleo, o que o coloca em competição com biocombustíveis. Analistas consultados no contexto do lançamento do livro estimam que o hidrogênio verde poderá ganhar participação significativa no mercado de combustíveis por volta de 2035, condicionado à definição imediata de políticas públicas que direcionem a demanda.

OUTRAS NOTÍCIAS

REDES SOCIAIS

6,762FãsCurtir
126SeguidoresSeguir
6,890InscritosInscrever
spot_img

VÍDEOS