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sábado, março 28, 2026

Relatório da UNESCO aponta 273 milhões de crianças fora da escola em todo o mundo

A Unesco divulgou nesta quarta-feira (25) o Relatório de Monitoramento Global da Educação (Relatório GEM) 2026, que traça um panorama das tendências educacionais no mundo.

O documento aponta que a população fora da escola voltou a crescer pelo sétimo ano consecutivo. Depois de uma queda de 33% entre 2000 e 2015, o número de pessoas fora da educação aumentou 3% desde 2015, chegando a 273 milhões em 2024. Isso equivale a uma em cada seis crianças, adolescentes e jovens sem acesso à educação. Além disso, apenas dois terços dos jovens concluem o ensino secundário.

O relatório identifica como principais fatores desse retrocesso o crescimento populacional, crises diversas e cortes orçamentários. A Unesco estima que a parcela de jovens fora da escola pode estar subestimada em pelo menos 13 milhões caso sejam consideradas fontes humanitárias para preencher lacunas de dados nos dez países mais afetados por conflitos.

O Relatório GEM 2026 é a primeira parte da série “Contagem Regressiva para 2030”, que terá três publicações: acesso e equidade (2026), qualidade e aprendizagem (2027) e relevância (2028–2029).

Matrículas e acesso

Em 2024 havia 1,4 bilhão de estudantes matriculados no ensino primário e secundário. Desde 2000, as matrículas nesse nível aumentaram em 327 milhões, equivalente a um crescimento de 30%. O relatório também registra expansão de 45% na pré-escola e de 161% no ensino pós-secundário desde 2000. Na prática, mais de 25 crianças passaram a ter acesso à escola a cada minuto.

Como exemplos de avanços, a taxa de matrícula primária na Etiópia subiu de 18% em 1974 para 84% em 2024. No ensino superior, a China expandiu o acesso de 7% em 1999 para mais de 60% em 2024.

Educação pré-primária e indicadores

A análise usa como referência se uma criança de cinco anos está em sala de aula. Embora o indicador global aponte que 75% das crianças dessa idade têm acesso à educação, apenas 60% dos alunos do ensino fundamental tiveram ao menos um ano de educação pré-primária. O relatório sinaliza que esse descompasso pode refletir uma aparente “sucessão” da educação infantil quando crianças ingressam diretamente no ensino fundamental sem passar pela etapa pré-primária.

Retenção e impacto de crises

O progresso na permanência escolar desacelerou em quase todas as regiões desde 2015. A África Subsaariana destaca-se negativamente, em grande parte por causa do crescimento populacional. Crises e conflitos também têm comprometido avanços. O relatório identifica o Oriente Médio como outra região com milhões de crianças fora da escola e com risco elevado de atraso educacional, em parte devido ao fechamento de escolas provocado por ataques e combates.

O documento registra que mais de uma em cada seis crianças vive em áreas afetadas por conflitos, o que acrescenta milhões de alunos fora da escola além dos números oficiais.

Progresso em países específicos

Apesar dos desafios, alguns países alcançaram reduções expressivas nas taxas de evasão desde 2000. Entre crianças, destaque para Madagascar e Togo; entre adolescentes, para Marrocos e Vietnã; e entre jovens, para Geórgia e Turquia. A Costa do Marfim cortou pela metade as taxas de exclusão nas três faixas etárias analisadas.

O relatório também compara avanços entre pares: entre 2000 e 2024, o México reduziu taxas de evasão 20 pontos percentuais a mais que El Salvador; Serra Leoa aumentou a conclusão do primário 22 pontos a mais que a Libéria; e o Iraque elevou a conclusão do ensino médio 10 pontos a mais que a Argélia.

Conclusão escolar e repetência

As taxas de conclusão aumentaram desde 2000: no primário, de 77% para 88%; no final do ensino fundamental, de 60% para 78%; e no ensino médio, de 37% para 61%. A progressão no ensino médio tem sido em torno de um ponto percentual por ano desde 2000. Mantido o ritmo atual, o mundo alcançaria 95% de conclusão do ensino médio apenas em 2105.

As taxas de repetência caíram significativamente: desde 2000 houve queda de 62% no primário e de 38% no ensino médio inferior. Ainda assim, em muitos países de baixa e média-baixa renda alunos ingressam tardiamente e repetem anos, resultando em conclusão de ciclos com atraso. A diferença entre conclusão “no tempo certo” e conclusão final no ensino médio inferior é de 4 pontos percentuais globalmente, chegando a 9 pontos em países de baixa renda, tendência que vem aumentando desde 2005.

ODS 4, equidade e educação inclusiva

O Relatório GEM lembra o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4, que busca garantir até 2030 a conclusão do ensino primário e secundário gratuito, equitativo e de qualidade para todas as crianças. Desde 2022, 80% dos países comunicaram metas nacionais para pelo menos alguns dos oito indicadores do ODS 4.

Em termos de gênero, a média global mostra redução das disparidades na educação primária e secundária nos últimos anos, com casos de rápido avanço em alguns países, como o Nepal.

Na agenda da inclusão, a proporção de países com leis sobre educação inclusiva cresceu de 1% em 2000 para 24% em 2025. Leis que contemplam crianças com deficiência passaram de 17% para 29%. A adoção de definições formais de educação inclusiva subiu de 68% em 2020 para 84% em 2025; entre esses países, a parcela cuja definição vai além da deficiência aumentou de 51% para 69%.

Entre 1998 e 2023, em 158 países a proporção de pessoas sujeitas a 12 anos de escolaridade obrigatória passou de 8% para 26%. Em 130 países, a duração média da educação gratuita aumentou de 10 anos para 10,8 anos.

Financiamento

O uso de mecanismos de financiamento voltados a populações desfavorecidas — transferências a governos subnacionais, a escolas e a alunos/famílias — cresceu de quatro a seis vezes nos últimos 25 anos. Programas de merenda escolar dobraram de tamanho.

Na pré-primária, 54% dos países transferem recursos para instituições que atendem crianças desfavorecidas; 26% fazem transferências para famílias por meio do Ministério da Educação; e 55% por meio de outro ministério. No ensino superior, cerca de um terço dos países não cobra mensalidades em universidades públicas; quase metade subsidia alojamento estudantil; 40% apoiam transporte; e um pouco menos de 30% subsidiam livros didáticos.

Recomendações da Unesco

Com o prazo de 2030 se aproximando, a Unesco recomenda integrar mais firmemente as metas educacionais aos processos nacionais de planejamento e orçamento, levando em conta taxas de progresso anteriores e experiências internacionais. O relatório defende comunicação interna mais clara das metas, uso mais eficiente de dados de pesquisas e censos para monitorar participação e equidade, e melhoria das estatísticas sobre participação e aproveitamento escolar.

A agência também enfatiza a necessidade de monitorar políticas públicas — não apenas resultados —, valoriza intercâmbios entre países como fonte de ideias e alerta para a necessidade de adaptar experiências internacionais às realidades locais. Por fim, aponta que o desenvolvimento de políticas educacionais deve ser guiado pela equidade e por avaliação de resultados.

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