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sexta-feira, abril 3, 2026

Moradores de Perus (SP) denunciam fraude em audiência pública

Moradores do bairro de Perus, na zona norte de São Paulo, foram impedidos de participar da primeira audiência consultiva convocada pela prefeitura e pelo governo estadual para discutir a instalação de uma incineradora de resíduos, o projeto chamado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes.

O empreendimento é de responsabilidade da empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga). No processo de licenciamento, a companhia apresentou estudos e documentos à Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Relatos e apuração jornalística apontam que ônibus pararam em frente ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, na Vila Fanton, e pessoas não reconhecidas por moradores formaram fila para entrar no teatro, lotando o espaço e se inscrevendo para falar. A reportagem identificou ao menos uma pessoa que afirmou ter sido paga para participar da audiência como se fosse moradora local e disse ter recebido orientações sobre como reagir durante a sessão.

Com o teatro do CEU lotado, cerca de 500 moradores teriam sido impedidos de entrar. Dois televisores foram instalados no salão de entrada, mas o local não comportou todos os presentes, fazendo com que muitas pessoas — inclusive crianças — aguardassem do lado de fora, sob chuva.

Do lado de fora do CEU, agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) foram posicionados em formação, equipados com escudos e spray de pimenta, segundo relatos. Vereadores tiveram a fala proibida em determinado momento, informação que a assessoria da prefeitura contestou, negando o uso de equipamentos de menor potencial ofensivo.

Representantes do povo guarani mbya, da Terra Indígena do Jaraguá, conseguiram entrar na audiência após insistência. O Jaraguá tem ligação histórica com a região de Perus; o distrito foi criado em 1948 e moradores da área quiseram participar da sessão.

Lideranças locais organizaram uma audiência própria, aberta à comunidade, como resposta à forma como a primeira sessão foi conduzida. Também há intenção de realização de uma audiência específica pelos guarani mbya.

Os opositores ao projeto defendem alternativas de ocupação do território, como a criação de um Território de Interesse de Cultura e da Paisagem Jaraguá-Perus-Anhanguera, e iniciativas de turismo e valorização da relação com a natureza.

Contexto histórico e dados socioambientais

Há registros de abordagens de representantes da Loga a moradores de Perus em tentativas de obter apoio ao projeto. O bairro carrega estigma histórico: a Vala Clandestina do Cemitério Dom Bosco, usada para ocultar corpos durante a ditadura militar, e a proximidade com o Hospital Psiquiátrico do Juquery estão entre elementos que marcam a imagem da região.

O Mapa da Desigualdade, compilado pela Rede São Paulo com dados de 2024 e divulgado em 2025, aponta expectativa de vida média de 62 anos no distrito de Perus. O levantamento também coloca a área em posições relativas no estado: 5º em cobertura vegetal, 6º em emissão de poluentes atmosféricos por área (kg/km²/dia) — cálculo baseado em viagens de ônibus — e 66º no número de Pontos de Entrega Voluntária (PEV).

No passado, a região recebeu empreendimentos de gestão de resíduos. Em 1979 foi inaugurado o aterro sanitário Bandeirantes, com 140 hectares, ativo por 28 anos e que recebeu entre 35 e 40 milhões de toneladas de resíduos. Comunidades locais já relataram pressões para aceitar outros empreendimentos semelhantes, como o aterro na Chácara Maria Trindade, no distrito de Anhanguera, no início dos anos 2000.

Posicionamentos oficiais

A Cetesb informou que as contribuições apresentadas na audiência serão incluídas no processo de licenciamento e consideradas na análise técnica. A companhia também comunicou que o projeto da URE em Perus está em fase de análise técnica e que o procedimento segue o rito legal, com base no Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) apresentados pela empresa.

A SP Regula e a Loga divulgaram notas afirmando que as UREs previstas no contrato de concessão do município são instalações modernas, diferentes dos incineradores antigos, e que a URE Bandeirantes integrará o Ecoparque Bandeirantes. Segundo as empresas, a unidade terá capacidade para receber até mil toneladas de resíduos por dia, com recuperação estimada de cerca de 64% do material e destinação de aproximadamente 36% a aterro sanitário externo. As companhias também ressaltaram a importância da participação popular no processo de licenciamento e negaram ter oferecido vantagens a lideranças ou participantes, afirmando que a presença do público ocorreu de forma espontânea e respeitou a ordem de chegada e a capacidade do local.

O processo de licenciamento segue em análise pela Cetesb, que declarou considerar as contribuições recebidas durante as audiências no exame técnico do empreendimento.

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