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sexta-feira, abril 10, 2026

Estudo aponta baixo acesso a diagnóstico e terapias para pessoas com autismo

O estudo Mapa Autismo Brasil (MAB), primeiro levantamento sociodemográfico nacional sobre pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), aponta que o acesso ao diagnóstico e às terapias continua restrito no país.

Realizada pelo Instituto Autismos, a pesquisa ouviu 23.632 pessoas por meio de questionário online entre 29 de março e 20 de julho de 2025. Foram registradas 16.807 respostas de responsáveis por pessoas autistas, 4.604 de adultos autistas e 2.221 de participantes que se identificaram tanto como autistas quanto como responsáveis.

Apesar de cerca de 25% da população brasileira ter plano de saúde, apenas 20,4% dos entrevistados informaram que o diagnóstico de TEA foi confirmado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Quanto ao uso de terapias, 15,5% disseram recorrer ao SUS, enquanto mais de 60% utilizam planos de saúde ou pagam particular por serviços.

Perfil sociodemográfico
– Raça/cor: 60,8% brancos; 32% pardos; 5,2% pretos; 1,1% amarelo; 0,25% indígena.
– Gênero: 65,3% homens; 34,2% mulheres.
– Idade: 72,1% até 17 anos; 27,9% entre 18 e 76 anos.
– Renda familiar: 28,6% até R$ 2.862; 37,9% entre R$ 2.862 e R$ 9.540; 20,33% acima de R$ 9.540.
– Nível de suporte: 53,7% nível 1; 33,7% nível 2; 12,6% nível 3.

Comorbidades e comunicação
As comorbidades mais relatadas foram TDAH (51,5%), transtorno de ansiedade (41,1%), distúrbios do sono (27,9%), problemas gastrointestinais (23,2%) e transtorno do desenvolvimento da linguagem (19,3%). Entre outros registros constam altas habilidades/superdotação (19,1%), transtorno depressivo (17,5%), deficiência intelectual (16,4%) e transtornos específicos da aprendizagem (12,1%).

Em termos de comunicação, 55,5% falam frases completas e longas; 29,5% fazem ecolalia; 28,1% usam poucas palavras ou frases; 7,65% não falam nem usam comunicação aumentativa e alternativa (CAA) ou escrita; 4,15% falam pouco e usam CAA; 3,51% não falam e usam CAA; 0,59% usam Libras.

Cuidadores e renda
Entre os responsáveis por pessoas autistas, 96% eram mãe ou pai, sendo 92,4% mães. Dos cuidadores, 55,2% têm ensino superior completo ou pós-graduação. Em relação ao vínculo com o trabalho, 30,47% declararam não ter renda ou estar desempregados; 21,9% são servidores públicos; 16% trabalham sob regime CLT; há também porcentagens em atividade informal e autônoma.

Benefícios e identificação
Do total de entrevistados, 76,6% informaram usar algum benefício. Os mais citados foram cartão de identificação da pessoa com TEA (36,7%), atendimento preferencial (30%) e vaga de estacionamento para pessoas com deficiência (20,7%). Apenas 16,6% relataram acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), 12,9% ao passe livre e 7,7% à isenção de IPVA.

Diagnóstico
A maior parte dos diagnósticos ocorreu até os 4 anos de idade (51,7%), seguida pela faixa de 5 a 9 anos (17,1%) e 10 a 14 anos (6,1%). A mediana foi de 4 anos e a média de 11 anos, evidenciando diagnósticos tardios em parcela significativa da amostra.

Os primeiros sinais foram percebidos principalmente por familiares (55,9%) e pela própria pessoa autista (11,4%). Médicos sinalizaram os sinais em 7,3% dos casos e professores em 9,4%. Neurologistas e neuropediatras foram os responsáveis por 67% dos diagnósticos, seguidos por psiquiatras (22,9%).

Quanto ao local do diagnóstico, 55,2% ocorreram na rede privada, 23% por meio de plano de saúde e 20,4% pelo SUS, com maior dependência do sistema público nas regiões Norte e Nordeste.

Terapias e custos
As terapias mais frequentes foram psicoterapia (52,2%), terapia ocupacional (39,4%), fonoaudiologia (38,9%), psicopedagogia (30,8%) e terapia ABA (29,8%). Menores percentuais foram observados em fisioterapia (12,5%), nutrição (10,2%), musicoterapia (11%), psicomotricidade (15%), equoterapia (4,3%) e estimulação precoce (3,7%). Um total de 16,4% declarou não realizar terapias.

Na escolha da rede para atendimento, 35,3% relataram uso de plano de saúde, 28,5% rede particular, 15,5% SUS e 7,93% associações como APAEs. Entre usuários do SUS, 33,8% fazem terapia ocupacional, contra 64,5% entre usuários de planos de saúde. A rede pública também apresentou menor oferta de psicoterapia, fonoaudiologia, ABA, psicomotricidade e musicoterapia em comparação ao uso do plano de saúde.

Os gastos mensais com terapias concentraram-se nas faixas de R$ 501 a R$ 1.000 (24,8%), R$ 1.001 a R$ 3.000 (22,2%) e R$ 101 a R$ 500 (20,9%). Valores até R$ 100 foram citados por 5,7%; 4,3% relataram despesas superiores a R$ 5.000; 4,2% não souberam informar.

Em termos de carga horária, a maioria informou uma hora semanal de terapia (25,90%), nenhuma (18,13%) ou duas horas (12,44%). Apenas 1,54% alcançam 40 horas ou mais por semana, indicando atendimento terapêutico de baixa intensidade para grande parte dos casos.

Educação e vida adulta
Do total de entrevistados, 83,7% frequentam instituição de ensino: 52,26% em escola pública e 31% em estabelecimento particular; 16% não frequentam nenhuma instituição. Quanto a recursos de inclusão, 39,9% disseram não receber apoio. Entre os apoios informados estão educador social/monitor/tutor (23,8%), acompanhamento especializado (18,8%), adaptações pedagógicas (18,8%) e sala de recursos (18,1%).

Na faixa etária entre 18 e 76 anos, 29,9% dos autistas declararam estar desempregados ou sem renda. Entre os que trabalham, 21,1% são servidores públicos, 20% têm emprego com carteira assinada, 8,1% atuam como autônomos, 6,7% como pessoa jurídica e 5,9% trabalham sem carteira assinada. Outros 4,1% dependem de auxílio governamental, 3,5% recebem aposentadoria ou pensão e 0,35% integram a carreira militar.

Conclusão
O levantamento fornece um panorama detalhado do perfil socioeconômico e do acesso a serviços por pessoas autistas e seus cuidadores no Brasil. O Instituto Autismos destaca que os dados apontam para lacunas no diagnóstico precoce, desigualdade no acesso a terapias e necessidade de avanços nas políticas públicas para ampliar cobertura e intensidade de atendimento.

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