Especialistas e autoridades defendem que a América Latina aproveite suas reservas de minerais críticos e terras raras para desenvolver cadeia produtiva da transição energética e reduzir dependência externa.
O tema esteve em debate no Seminário Internacional Energia, Integração e Soberania, realizado no Rio de Janeiro pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), em parceria com a Fundação Perseu Abramo e a Fundação Friedrich Ebert Brasil. Participaram do evento ex-ministros, parlamentares e pesquisadores.
Dados da Agência Internacional de Energia (AIE) apontam a região como estratégica para o mercado global desses minerais. A AIE estima que a América Latina concentre cerca de 45% das reservas de lítio e 30% das de cobre mundiais, além de quantidades relevantes de grafite, terras raras, níquel, manganês, prata e bauxita, com destaque para Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Peru.
Relatórios internacionais também mostram a dependência dos Estados Unidos em relação a essas importações. Um documento do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) de 2026 indica que os EUA importam mais da metade do lítio que consomem e mais de dois terços dos compostos e metais de terras raras.
A China mantém papel dominante não apenas na mineração, mas sobretudo no processamento e refino dos materiais. Segundo a AIE, o país responde por cerca de 44% do refino global de cobre, por 70% a 75% do processamento de lítio e cobalto, e por mais de 90% do refino de elementos de terras raras e de grafite de grau para baterias. A agência registra ainda forte atuação chinesa em projetos de mineração na África, na América Latina e na Indonésia.
No plano geopolítico, a disputa pelo controle dessas cadeias produtivas é parte das tensões comerciais entre China e Estados Unidos. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada no fim do ano passado, e iniciativas recentes do governo norte-americano têm como foco limitar o acesso de concorrentes a ativos estratégicos no Hemisfério Ocidental. Em março, foi anunciada uma coalizão militar envolvendo 12 países latino-americanos, movimento interpretado como alinhado à agenda norte-americana de conter influência externa na região.
No Brasil, o governo tem sinalizado interesse em garantir participação em todas as etapas das cadeias de valor dos minerais críticos presentes no continente. Em cerimônia de assinatura de acordos com a Espanha, o presidente ressaltou a importância de evitar que a região repita ciclos econômicos passados em que matérias‑primas foram exportadas sem desenvolvimento industrial local, caracterizando o tema como de segurança nacional e afirmando disposição para negociar com outros países.
Economistas e especialistas presentes ao seminário avaliaram que a abundância de recursos cria oportunidade para a formação de indústria regional vinculada à transição energética, com potencial para gerar empregos e ampliar poder de negociação internacional. Eles também apontaram que avanços nessa direção exigem políticas de integração, investimento em refino e produção local, e negociações que incentivem transferência de tecnologia.
O debate sobre a internalização de etapas produtivas ganhou ainda exemplos práticos, como a importância do lítio para baterias de veículos elétricos e do cobre para infraestrutura solar e eólica, além da relação entre gás natural e produção de fertilizantes, relevante para a matriz agrícola regional.
O repórter participou do seminário a convite do Ineep.




