A soberania e a integração entre países africanos foram ressaltadas como condições fundamentais para a paz, a estabilidade e a segurança do continente no 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, realizado nos dias 20 e 21 de janeiro em Dakar, Senegal. O evento apontou também a necessidade de investimentos voltados à juventude e de maior controle das fronteiras para enfrentar desafios como o terrorismo.
Promovido pelo governo senegalês desde 2014, o fórum reúne chefes de Estado, representantes de organismos internacionais e especialistas. A edição de 2026 contou com a participação de 38 países, dos quais 18 são nações africanas. O Brasil esteve presente por meio da embaixadora no Senegal, Daniella Xavier.
O tema central deste ano abordou as inter-relações entre estabilidade, integração e soberania e a busca por soluções sustentáveis para os problemas de segurança e desenvolvimento na região.
Na abertura, as autoridades senegalesas destacaram que crises econômicas, tensões comerciais entre grandes potências e os efeitos das mudanças climáticas afetam diretamente a África. Também foi enfatizada a necessidade de garantir que a agenda de segurança e a gestão de recursos naturais — incluindo urânio, petróleo e gás, com descobertas recentes no Senegal — sejam decididas e aproveitadas pelos próprios países africanos, com processamento e venda local como vetor de transformação econômica.
A ameaça terrorista no Sahel recebeu atenção especial. O Sahel, região de transição entre o deserto do Saara e as savanas ao sul, tem visto expansão de grupos afiliados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda desde meados da década de 2010, avançando inclusive em direção aos países do Golfo da Guiné.
O Índice de Terrorismo Global 2026, elaborado pelo Instituto para Economia e Paz, aponta o Sahel como epicentro do terrorismo mundial e registra que a região foi responsável por mais da metade das mortes por terrorismo em 2025. O Sahel é composto por dez países: Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Mali, Burkina Faso, Níger, Chade, Camarões e Nigéria.
Mali, Burkina Faso e Níger, no Sahel central, concentraram cerca de 4,5 mil atentados nas últimas duas décadas, com um total estimado de 17 mil mortes, segundo o relatório. Essas nações também enfrentam instabilidade política, com pelo menos um golpe militar registrado em cada uma na última década, e convivem com insurgências em áreas de fronteira. O estudo destaca ainda que a falta de coordenação de segurança transfronteiriça tem sido explorada por grupos jihadistas.
Como resposta, o fórum defendeu uma abordagem multidimensional: ações militares quando necessárias, controle efetivo das fronteiras, troca de informações e operações conjuntas entre forças de defesa e segurança dos países da região.
A questão da juventude foi colocada como elemento central para a estabilidade. Autoridades de Serra Leoa e de outros países apontaram que a ausência de alternativas institucionais e oportunidades tem facilitado o recrutamento de jovens por grupos violentos, e que políticas voltadas ao público jovem devem ser tratadas como componente estratégico de segurança.
Líderes africanos presentes também defenderam soluções baseadas na realidade do continente, com respeito à autonomia dos países e promoção da autodeterminação regional. A integração econômica foi apresentada como instrumento para reduzir dependências externas, fortalecer complementaridades regionais e ampliar a voz africana no cenário internacional.
O presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, destacou fatores que testam a coesão social — como tensões identitárias, déficits de governança, rupturas institucionais, vulnerabilidades econômicas, mudanças climáticas e expansão de grupos armados não estatais — e afirmou que a integração continental é essencial para enfrentar esses desafios.
No campo econômico, foi defendido o fortalecimento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao), que reúne 12 países. A Cedeao foi apontada como um mecanismo importante para incentivar o comércio intra-regional e facilitar a circulação de bens, serviços e pessoas. O presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, atualmente à frente da organização, busca ampliar a área de comércio e reforçar a adesão às metas comunitárias para os mais de 400 milhões de cidadãos da região. Mali, Níger e Burkina Faso deixaram a organização nos últimos anos, citando preocupações sobre influências externas.
Além dos temas já mencionados, a agenda do fórum inclui soberania tecnológica e digital, gestão de recursos naturais, transições políticas e desenvolvimento da indústria de defesa. Várias delegações participaram com ministros e representantes governamentais, enquanto chefes de Estado e especialistas discutiram medidas práticas para promover estabilidade, integração e soberania no continente.




