Um trabalho escolar sobre a contribuição da cultura negra na formação do Brasil, pedido a uma estudante de 15 anos em Brasília, chamou a atenção da mãe da adolescente, a advogada Karina Berardo. Mãe de dois filhos negros, ela avalia que propostas desse tipo ainda são incomuns no ambiente escolar.
A percepção da família acompanha os resultados de um estudo inédito divulgado nesta terça-feira (26), que analisou como estudantes percebem o ensino de temas raciais nas escolas brasileiras. A pesquisa integra dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) 2023 e foi realizada em parceria com o Núcleo de Pesquisa Afro do Cebrap, além dos institutos Alana e Geledés.
Segundo o levantamento, cerca de metade dos alunos do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio diz não reconhecer o debate sobre desigualdades raciais em sala de aula, apesar das leis que determinam o ensino de história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas.
O estudo, intitulado “Desigualdade racial na Educação Básica: a percepção de estudantes e professores a partir do Saeb 2023”, aponta que a educação antirracista ainda não foi incorporada de forma consistente à rotina escolar.
Pesquisadores afirmam que a legislação avançou nos últimos 20 anos, com projetos de formação de gestores e professores e mudanças curriculares. Ainda assim, a aplicação da norma segue irregular, com dependência de iniciativas pontuais de secretarias de educação e do Ministério da Educação.
A pesquisa também indica que as escolas privadas tendem a ser menos cobradas na implementação dessa agenda. Para os autores, isso contribui para a permanência de situações de discriminação racial no ambiente escolar.
Os dados mostram ainda diferença entre a percepção de professores e alunos. No 9º ano, 81,6% dos docentes disseram abordar desigualdades raciais “muitas vezes” ou “sempre”, enquanto apenas 46,6% dos estudantes reconheceram que a maioria ou todos os professores tratam do tema. No ensino médio, os percentuais foram de 71,6% entre professores e 46,8% entre alunos.
A ausência do debate aparece com mais força na rede privada, onde 60,8% dos estudantes, tanto no ensino fundamental quanto no médio, afirmaram não perceber o tema em sala. Na rede pública, os índices foram menores, mas ainda elevados.
O recorte por raça também revela diferenças. Estudantes brancos apresentam maior proporção de respostas indicando que o assunto não é reconhecido nas aulas, em comparação com pretos, pardos e indígenas.
Os pesquisadores defendem que a educação antirracista não deve ser vista apenas como uma pauta voltada a estudantes negros, mas como parte da formação cidadã de todos os alunos.
O estudo também aponta a necessidade de monitoramento permanente das políticas públicas, formação continuada de professores, produção de material didático específico e maior diversidade racial no corpo docente. Outro ponto destacado é a importância da participação das famílias no combate ao racismo.
A falta de tratamento contínuo do tema também aparece em relatos de famílias. A servidora pública Juliana Couto, de 48 anos, mãe de duas meninas de 7 e 15 anos, afirma que as filhas já foram vítimas de preconceito. Ela defende mais presença de professores negros nas escolas e avalia que os avanços, embora reais, ainda precisam se consolidar ao longo do tempo.




