Cenipa diz que pilotos da Voepass não comunicavam falhas nas aeronaves

**Cenipa aponta falhas de manutenção e cultura interna como fatores na queda de avião da Voepass**

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) a conclusão da investigação sobre a queda do avião PS-VPB, da Voepass, ocorrida em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, no interior de São Paulo.

O acidente deixou 62 mortos, entre eles quatro tripulantes. A aeronave, um turboélice ATR de fabricação francesa, havia partido de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Segundo o Cenipa, a queda foi resultado de uma combinação de fatores, incluindo falhas em sistemas da aeronave, alertas não tratados de forma adequada, manutenção considerada insuficiente e práticas internas que contribuíram para a não comunicação de problemas identificados em voos anteriores.

A investigação apontou fragilidades nos procedimentos de manutenção da empresa. Também foram identificados casos de troca de componentes com falhas entre aeronaves, com posterior liberação para operação.

O órgão analisou voos anteriores realizados pela mesma aeronave, com diferentes tripulações, em rotas dentro do estado de São Paulo. Em todos esses voos houve registro de formação de gelo e falha no sistema responsável por remover o gelo de partes do avião. Apesar disso, os problemas não foram registrados no diário de bordo.

De acordo com a apuração, havia um padrão de normalização de desvios operacionais. Pilotos e copilotos recebiam alertas, desligavam avisos e identificavam falhas em sistemas, mas essas ocorrências não eram formalmente reportadas.

Durante o voo que terminou no acidente, o sistema da aeronave emitiu diversos alertas sobre acúmulo de gelo. Também houve oito avisos relacionados à perda de velocidade provocada pelo aumento de peso associado ao gelo na fuselagem.

O sistema de degelo chegou a ser acionado, mas apresentou falha e foi desligado pela tripulação. A investigação apontou que o procedimento adequado seria tentar reiniciar o sistema. Em caso de nova falha, a aeronave deveria descer para altitudes mais baixas, onde as temperaturas são menos severas. Essa medida não foi adotada.

O Cenipa também concluiu que o avião não deveria ter decolado naquela condição devido a uma pane nos limpadores de para-brisa. Esse problema restringia a operação a situações sem chuva e sem previsão de chuva uma hora antes da decolagem e uma hora depois do pouso.

Para identificar possíveis padrões operacionais, o Cenipa avaliou 15 mil voos da Voepass. Desse total, 1.674 tiveram algum tipo de alerta de degradação de performance. Em um dos casos, houve perda de controle em determinado momento do voo, mas o episódio não foi comunicado ao órgão, apesar da obrigatoriedade.

A análise da cabine indicou que piloto e copiloto trataram dos alertas exibidos no painel durante o trajeto. Em determinado momento, após mais de uma hora de voo, foi identificado que o sistema de degelo não havia sido ligado, mesmo após os avisos. Pouco antes da queda, a tripulação reconheceu a presença significativa de gelo na aeronave.

Na aproximação do destino, a tripulação passou a lidar simultaneamente com alertas de excesso de gelo, perda de velocidade, procedimentos de descida e comunicação com o controle de tráfego aéreo para autorização de pouso.

Segundo a investigação, a combinação entre demora na liberação para pouso, acúmulo de gelo, falhas no sistema de degelo e resposta tardia da tripulação contribuiu para a perda progressiva de controle da aeronave. O ATR-72 212A entrou em rotação em parafuso e atingiu o solo em Vinhedo.

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