# Bets atraem jovens, ampliam endividamento e afetam acesso à educação
A procura por ajuda para enfrentar a dependência de apostas online tem crescido entre jovens, inclusive adolescentes. Integrantes de grupos de apoio relatam a chegada de pessoas a partir dos 14 anos com problemas relacionados às bets.
O acesso fácil às plataformas pelo celular é apontado como um dos fatores que ampliam a exposição desse público. Levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), divulgado em 2021, indicou que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar online até os 11 anos. A proporção chega a 78% a partir dos 12 anos.
No Brasil, pesquisa divulgada neste ano pela Frente Parlamentar Mista de Educação ouviu 1.912 alunos dos ensinos fundamental e médio. Entre os participantes, 9,5% afirmaram ter feito a primeira aposta aos 11 anos. Quase metade dos estudantes do 3º ano do ensino médio declarou já ter apostado.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) também identificou a promoção de apostas ilegais em canais voltados ao público infantil. Segundo o levantamento, conteúdos direcionados a crianças e adolescentes exploram a falta de maturidade financeira desse público.
A vulnerabilidade dos mais jovens está ligada ao desenvolvimento cerebral. Na adolescência, áreas relacionadas à recompensa e ao prazer têm maior atividade, enquanto os mecanismos de controle de impulsos e avaliação de riscos ainda estão em formação e só amadurecem plenamente na vida adulta.
## Prejuízos financeiros e saúde mental
Casos acompanhados por grupos de apoio mostram que a compulsão por apostas pode provocar perdas financeiras expressivas, endividamento, depressão e transtornos de ansiedade.
Em Lages, em Santa Catarina, um jovem de 24 anos tenta reorganizar a vida após deixar as apostas online. Ele começou a jogar aos 18 anos e relatou perdas de cerca de R$ 500 mil em seis anos. Há aproximadamente dois meses sem apostar, passou a vender café nas ruas da cidade e utiliza as redes sociais para compartilhar sua rotina de recuperação.
A dependência também atinge adultos de diferentes faixas etárias. Frequentadores do Jogadores Anônimos relataram períodos de abstinência que variam de seis meses a 15 anos. O grupo recebe, principalmente, pessoas em situação de forte endividamento e com dificuldades para manter despesas básicas.
Dados do IBICT apontam que ao menos 24 milhões de brasileiros fizeram apostas em bets em 2024. Quase metade deles terminou o período endividada. O instituto alerta que os gastos com jogos podem comprometer recursos destinados a despesas como alimentação, aluguel, vestuário e educação, além de agravar riscos à saúde mental.
## Impacto no ensino superior
O avanço das apostas também tem repercussões na educação. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) mostrou que 34% dos entrevistados precisariam reduzir ou interromper gastos com bets para conseguir iniciar uma graduação em 2026.
Entre os estudantes já matriculados no ensino superior, 14% disseram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso devido às despesas com apostas.
O levantamento indicou ainda que 34% deixaram de investir em cursos, idiomas e outras formas de qualificação por causa das bets. Outros 33% afirmaram ter abandonado gastos com academias ou atividades físicas. A pesquisa não analisou desempenho acadêmico nem indicadores de saúde mental.
## Regras para proteção de crianças e adolescentes
Em setembro de 2025, o governo federal sancionou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, conhecido como ECA Digital ou Lei Felca. A legislação entrou em vigor em março de 2026 e estabeleceu novas exigências para plataformas, aplicativos, jogos e redes sociais.
A norma prevê mecanismos mais rigorosos de verificação de idade e proíbe apostas online por menores de 18 anos. Adolescentes com menos de 16 anos só podem usar redes sociais com vínculo a responsáveis.
O estatuto também restringe o acesso de menores às chamadas loot boxes, caixas pagas com itens aleatórios comuns em jogos eletrônicos e que têm características semelhantes às de jogos de azar.
A legislação ainda amplia a responsabilidade de escolas na promoção da cidadania digital e prevê medidas contra omissões em casos de cyberbullying. Influenciadores menores de idade também não podem realizar publicidade velada.
Estudos do IBICT apontam que redes como Facebook, X, TikTok e, principalmente, YouTube foram usadas por influenciadores para estimular apostas entre crianças e adolescentes. O cumprimento das regras depende da fiscalização do poder público e da adoção de mecanismos de proteção pelas empresas do setor.




