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segunda-feira, janeiro 19, 2026

Liquidação do Banco Master e da Reag: o que aconteceu e impactos para clientes

A liquidação do Banco Master, determinada pelo Banco Central em novembro de 2025, e a decisão sobre a gestora Reag, anunciada na quinta-feira (15), revelaram um caso de fraude de grande escala no sistema financeiro brasileiro. Investigações da Polícia Federal e relatórios do BC indicam uso de fundos de investimento para ocultar prejuízos, operações contábeis artificiais e tentativas de transferência de ativos para diluir perdas.

O banco, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, cresceu oferecendo Certificados de Depósito Bancário (CDB) com remuneração muito acima do mercado. Para sustentar essa estratégia, as apurações apontam que o Master assumiu riscos excessivos e estruturou transações que inflamaram seu balanço, ao mesmo tempo em que a liquidez efetiva deteriorou-se.

Como funcionava o esquema
Entre 2023 e 2024, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de operações de triangulação. O mecanismo envolvia empréstimos a empresas apontadas como laranjas, que aplicavam recursos em fundos administrados pela Reag Investimentos. Esses fundos, segundo as investigações, adquiriram ativos de baixo ou nenhum valor real — como certificados do extinto Banco Estadual de Santa Catarina (Besc) — por preços inflacionados.

O Banco Central identificou seis fundos da Reag sob suspeita, com patrimônio somado de R$ 102,4 bilhões. O dinheiro circulava entre veículos ligados aos mesmos intermediários até chegar aos beneficiários finais.

Esquema de pirâmide
Para postergar a inadimplência, o Master concedia empréstimos com carência de até cinco anos e lançou novos CDBs para pagar investidores antigos, caracterizando um esquema Ponzi. Em busca de captação, o banco chegou a oferecer CDBs com remuneração de até 140% do CDI, um nível considerado insustentável. Com o surgimento das primeiras suspeitas em 2024, a captação secou e o caixa entrou em colapso.

Tentativa de venda ao BRB
Em busca de liquidez, o Master simulou a compra de uma carteira de crédito da empresa Tirreno avaliada em R$ 6 bilhões. A operação existia apenas na contabilidade, sem pagamento nem crédito real, conforme constatado na análise de CPFs pela autoridade monetária. Essa mesma carteira teria sido revendida ao Banco de Brasília (BRB) por R$ 12 bilhões após manipulação de taxas de juros. Em setembro, o Banco Central impediu a venda de parte do Master ao BRB. As investigações indicam que a operação visava mesclar balanços e diluir fraudes em um banco público.

Intervenção e liquidação
O BC impôs limite de captação do Master a 100% do CDI, interrompendo seu crescimento. Desde abril de 2025 o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) passou a cobrir CDBs vencidos por meio de linha emergencial. O controlador tentou aportar recursos pessoais, por meio da venda de bens, mas sem êxito. O banco foi liquidado quando não conseguiu honrar sequer 15% dos vencimentos semanais.

Papel da Reag Investimentos
Fundos administrados pela Reag aparecem como peça central na sustentação do esquema. A gestora é investigada por facilitar a constituição de empresas laranja, valorizar ativos fictícios e pulverizar recursos entre veículos para ocultar o destino dos recursos. A liquidação da Reag pelo Banco Central ocorreu na sequência da segunda fase da Operação Compliance Zero e é tratada como desdobramento direto do caso Master.

Tensões entre órgãos públicos
Embora o Master representasse cerca de 0,5% dos ativos do sistema financeiro, sua liquidação provocou conflitos entre órgãos públicos. Houve questionamentos no Supremo Tribunal Federal, no Tribunal de Contas da União e no Congresso sobre as decisões técnicas do BC. O Banco Central acertou com o TCU a inspeção de documentos, com restrições relativas ao sigilo bancário.

No STF, o ministro Dias Toffoli assumiu ações relacionadas ao caso e determinou preservação do material apreendido pela Polícia Federal. Posteriormente, autorizou a PF, com apoio da Procuradoria-Geral da República, a analisar os documentos, após medidas para custódia do material no tribunal.

Impacto para clientes
A responsabilidade pelo ressarcimento dos depósitos e CDBs do Master passou ao FGC, que calcula ter de indenizar cerca de 1,6 milhão de clientes. O valor estimado do desembolso é de aproximadamente R$ 41 bilhões, equivalente a cerca de um terço do patrimônio do fundo, e será limitado ao teto de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. O pagamento depende da consolidação da lista de credores pelo liquidante, procedimento ainda não concluído dois meses após a liquidação.

Os fundos da Reag não contam com proteção do FGC; cotistas têm a opção de migrar investimentos para outra gestora. Entre os investidores, 18 fundos de pensão estaduais e municipais aplicaram R$ 1,86 bilhão em fundos do Master e em Letras Financeiras, valores que não serão ressarcidos pelo FGC por não serem cobertos pelo mecanismo.

Por que o caso é histórico
O episódio expôs falhas de fiscalização, práticas de uso indevido de fundos e pressões sobre instituições de controle. Levanta dúvidas sobre auditorias e agências de classificação de risco que atestaram a saúde do Master, além de apontar limites da supervisão financeira. Analistas e autoridades já indicam que o caso tende a impulsionar mudanças regulatórias e debates sobre governança no mercado.

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