A Venezuela, alvo recente de ações militares dos Estados Unidos com objetivo declarado de promover mudança de governo, enfrenta há anos o efeito de sanções econômicas norte-americanas conhecidas como Medidas Coercitivas Unilaterais.
Relatórios das Nações Unidas e estudos acadêmicos apontam o uso crescente de cercos econômicos como instrumento de pressão externa, aplicado também em países como o Irã. Pesquisas e análises públicas servem como base para avaliar como essas medidas afetam a economia e o tecido social venezuelanos.
O bloqueio financeiro imposto pelos EUA dificultou o financiamento da indústria petrolífera venezuelana, restringiu o refinanciamento da dívida, obstruiu transações no mercado internacional e resultou no congelamento — ou na transferência para controle opositor — de ativos do país no exterior. Portugal e Reino Unido também adotaram medidas contra ativos venezuelanos. Em 2020, o Banco da Inglaterra reteve 31 toneladas de ouro da Venezuela, avaliadas em cerca de US$ 1,2 bilhão.
As sanções restringiram pagamentos de dividendos ao governo venezuelano provenientes da Citgo, principal subsidiária da estatal PDVSA no exterior. A Justiça dos EUA liquidou a Citgo ao fim de 2025 para atender credores internacionais da Venezuela. Além das medidas diretas, Washington aplicou sanções secundárias contra empresas estrangeiras que mantinham relações comerciais com Caracas, ampliando o impacto sobre parceiros internacionais.
A recessão entre 2013 e 2022 reduziu o Produto Interno Bruto venezuelano em aproximadamente 75% e impulsionou uma onda migratória de mais de 7,5 milhões de pessoas, cerca de 20% da população. A queda nos preços do petróleo, iniciada em 2014, e a adoção de sanções abrangentes a partir de agosto de 2017 são apontadas como elementos que, em conjunto, precipitaram o colapso econômico.
Entre 2018 e 2020 houve sanções específicas a setores como ouro, minérios, petróleo e diesel. Estudos de economistas que analisaram o período indicam que a perda de receitas externas e a obstrução de canais financeiros foram determinantes para a deterioração das condições econômicas e sociais, contribuindo para a hiperinflação oficializada em dezembro de 2017.
O setor petrolífero sofreu forte retração: após uma queda de 11,5% em 2017, a produção registrou recuo de 30,1% em 2018, ano seguinte ao início do bloqueio financeiro. Pesquisas apontam que essa redução representou perda de cerca de US$ 8,4 bilhões em divisas, afetando a capacidade do país de financiar importações essenciais.
Estimativas publicadas até o final de 2024 indicaram ainda que um endurecimento das sanções poderia gerar uma emigração adicional de cerca de 1 milhão de venezuelanos nos cinco anos seguintes, em comparação a um cenário sem bloqueio econômico.
A proibição de comércio do petróleo com os Estados Unidos reduziu receitas de exportação; cálculos divulgados por autoridades norte-americanas apontaram perdas superiores a US$ 11 bilhões em 2020. Em 2019, o bloqueio de reservas em ouro agravou restrições financeiras.
A partir de 2022, com o relaxamento de parte das medidas durante a administração do presidente Joe Biden, houve sinais de recuperação econômica. Dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) registraram crescimento do PIB venezuelano de 8,5% em 2024 e 6,5% em 2025.
O arcabouço legal que permitiu o atual pacote de sanções começou a ser gestado em 2014, com aprovação de lei em dezembro daquele ano. Em março de 2015, o governo dos EUA declarou emergência nacional e autorizou a imposição de sanções contra a Venezuela, fundamentando as medidas em alegações relacionadas a violações de direitos humanos, defesa da democracia e combate ao narcotráfico.




