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quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Quatro em cada dez óbitos por câncer no Brasil poderiam ser evitados

Um estudo internacional publicado na edição de março da revista The Lancet conclui que 43,2% das mortes por câncer no Brasil poderiam ser evitadas por meio de prevenção, diagnóstico precoce e melhor acesso ao tratamento.

Segundo a pesquisa, dos cerca de 253,2 mil casos de câncer diagnosticados no Brasil em 2022, estima-se que 109,4 mil resultarão em morte nos cinco anos seguintes e que essas mortes poderiam ser evitadas. O trabalho foi elaborado por 12 autores, oito deles vinculados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e com sede em Lyon, França.

Do total de mortes evitáveis no país, os pesquisadores separaram dois grupos: aproximadamente 65,2 mil óbitos considerados preveníveis — isto é, poderiam ter sido evitados — e 44,2 mil classificados como evitáveis por meio de diagnóstico precoce e tratamento adequado.

Visão global

O estudo analisou 35 tipos de câncer em 185 países. No plano mundial, os autores estimam que 47,6% das mortes por câncer são evitáveis. Dos 9,4 milhões de óbitos globais, quase 4,5 milhões poderiam não ter ocorrido. Desses, 33,2% seriam preveníveis e 14,4% poderiam ser evitados com diagnóstico e tratamento oportunos.

Como causas preveníveis, a pesquisa aponta cinco fatores principais: tabagismo; consumo de álcool; excesso de peso; exposição à radiação ultravioleta; e infecções relacionadas ao câncer — entre elas infecções por HPV, vírus da hepatite e a bactéria Helicobacter pylori.

Desigualdades entre países e regiões

O levantamento evidenciou disparidades marcantes. Entre países do norte da Europa, as proporções de mortes evitáveis ficam próximas a 30%: a Suécia registra 28,1%, a Noruega 29,9% e a Finlândia 32%. Já os maiores percentuais aparecem em nações africanas. Serra Leoa tem a pior situação, com 72,8% de mortes evitáveis, seguida por Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%). Nesses países, cerca de sete em cada dez óbitos poderiam ser evitados com maior prevenção, diagnóstico e tratamento.

Por regiões, os menores índices de mortes evitáveis são observados em Austrália e Nova Zelândia (35,5%), Norte da Europa (37,4%) e América do Norte (38,2%). As maiores proporções concentram-se na África Oriental (62%), África Ocidental (62%) e África Central (60,7%). A América do Sul apresenta 43,8% de mortes evitáveis, valor próximo ao do Brasil.

Índice de Desenvolvimento Humano

Ao agrupar por Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o estudo mostra que as desigualdades persistem. Em países de baixo IDH, 60,8% das mortes por câncer poderiam ter sido evitadas. Nos grupos seguintes os percentuais são: IDH alto 57,7%; IDH médio 49,6%; e IDH muito alto 40,5%. O Brasil está classificado como país de IDH alto.

O câncer de colo do útero lidera a lista de mortes evitáveis em países de baixo e médio IDH, enquanto não aparece entre os cinco principais nos grupos de IDH alto e muito alto. A diferença nas taxas de mortalidade também é expressiva: em países com IDH muito alto há 3,3 mortes por câncer do colo do útero a cada 100 mil mulheres, contra 16,3 por 100 mil em países de baixo IDH.

Tipos de câncer associados a mortes evitáveis

Os pesquisadores estimam que 59,1% das mortes evitáveis estão relacionadas a cinco tipos: pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero. Entre as mortes que poderiam ser prevenidas, o câncer de pulmão é o principal responsável, com 1,1 milhão de óbitos, o equivalente a 34,6% das mortes preveníveis. No grupo das mortes evitáveis por diagnóstico e tratamento, o câncer de mama entre mulheres lidera, com cerca de 200 mil casos, ou 14,8% desse total.

Medidas recomendadas

Para reduzir as mortes evitáveis, o estudo indica ações voltadas ao controle do tabagismo e do consumo de álcool, incluindo medidas de elevação de preços como forma de desencorajar o uso. Recomenda também políticas para enfrentar o excesso de peso, como regulação da publicidade, rotulagem mais rigorosa e aumento de tributos sobre alimentos e bebidas não saudáveis.

A prevenção de infecções associadas ao câncer, em especial por meio da vacinação contra o HPV, é apontada como estratégia central. Os autores também destacam a importância de metas relacionadas à detecção do câncer de mama, incluindo diagnóstico em estágios iniciais e redução do tempo entre a primeira consulta e o diagnóstico definitivo.

O estudo conclui que são necessários esforços globais para adaptar políticas de prevenção, diagnóstico precoce e tratamento de modo a mitigar as desigualdades nas mortes evitáveis, com foco especial em países de baixo e médio IDH.

No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) mantêm campanhas regulares de prevenção e detecção precoce.

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