Moradores de Havana relatam piora nas condições de vida após o endurecimento das restrições energéticas impostas pelos Estados Unidos no fim de janeiro. Nas últimas semanas houve aumento dos apagões, alta nos preços de itens básicos, redução do transporte público e queda na oferta da cesta básica subsidiada pelo Estado.
Na capital, interrupções de energia que antes eram programadas tornaram-se mais imprevisíveis e mais longas, com registros pontuais de apagões de até 12 horas. Nas províncias do interior, as quedas de eletricidade têm sido ainda mais severas, em alguns casos quase diárias, o que obriga moradores a comprar apenas o necessário para consumo imediato.
As novas medidas anunciadas pelos EUA incluíram a ameaça de tarifas a países que vendam petróleo a Cuba e a classificação da ilha como ameaça à segurança norte-americana, em razão de seu alinhamento político com Rússia, China e Irã. Cerca de 80% da eletricidade produzida em Cuba depende de termelétricas movidas a combustíveis fósseis. A restrição de acesso ao mercado global de petróleo reduziu a capacidade de aquisição de combustíveis e foi apontada como fator determinante da crise energética, agravada por um bloqueio naval à Venezuela citado no contexto das medidas.
A falta de energia tem impacto direto em serviços básicos: bombas de água deixam de funcionar, caixas eletrônicos ficam inacessíveis e órgãos públicos enfrentam dificuldades operacionais. O aumento de preços atinge alimentos essenciais, como arroz, óleo e carne de frango, segundo relatos de consumidores.
O transporte público sofreu cortes significativos. Linhas urbanas passaram a oferecer menos viagens diárias e algumas deixaram de operar com regularidade. O transporte privado encareceu e tornou-se inviável para muitos. Veículos elétricos introduzidos pelo governo têm alcance limitado devido à necessidade de recarga. Em rotas interprovinciais, a frequência de trens e ônibus diminuiu, com relatos de trens que circulam de quatro em quatro dias anteriormente e agora a cada oito dias, e de viagens diretas semanais reduzidas em ônibus nacionais.
O sistema de saúde também foi afetado pela crise energética e pela escassez de insumos. Consultas foram canceladas e o atendimento emergencial passou a ser priorizado. Há relatos de falta de medicamentos e de procura por remédios no mercado paralelo ou por meio de familiares. Autoridades e observadores indicam que o Estado tem menos recursos para garantir o fornecimento integral de medicamentos e da cesta básica como ocorria em períodos anteriores.
A pandemia de covid-19 marcou o início de um processo de deterioração econômica, com o colapso do turismo — principal atividade geradora de divisas. O endurecimento do embargo durante o governo de Donald Trump (2017–2021), com centenas de sanções, e a manutenção de medidas nos mandatos seguintes contribuíram para a situação atual. No novo governo citado, foram incluídas restrições à exportação de serviços médicos, uma importante fonte de receita para a ilha.
Apesar das dificuldades, escolas de educação básica têm conseguido manter atividades, em parte porque muitas unidades estão próximas às residências dos alunos. Centros culturais e programas de formação artística comunitária continuam funcionando em diversas localidades, oferecendo ocupação e lazer.
O bloqueio econômico aplicado pelos Estados Unidos a Cuba dura mais de seis décadas. O governo cubano criticou as últimas medidas e as considera prejudiciais à sobrevivência da população.




