O segundo recuo em menos de uma semana do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a ameaça de atacar a indústria de energia do Irã evidencia as limitações de Washington para ampliar o conflito. A hesitação ocorre em meio a impactos econômicos já sentidos pelo fechamento do Estreito de Ormuz e por ataques a infraestruturas energéticas nas monarquias do Golfo.
O barril de petróleo segue perto de US$ 110, enquanto ações em Wall Street operam em patamares mínimos dos últimos seis meses. Mercados de títulos na zona do euro e do Tesouro norte-americano também registram queda.
Avaliações de especialistas apontam que um ataque que destruísse a capacidade petrolífera iraniana tenderia a provocar retaliações na região e elevar fortemente o preço do petróleo — potencialmente acima de US$ 150 por barril e, em cenários extremos, próximo a US$ 200. Esse salto de preços teria consequências políticas internas nos EUA, aumentando a inflação e reduzindo a popularidade do presidente, inclusive entre eleitores independentes e parte do eleitorado republicano.
Economistas destacam ainda que os danos à infraestrutura energética da região teriam efeitos econômicos globais significativos. Enquanto religar sistemas paralisados é relativamente rápido, restaurar capacidade produtiva destruída demandaria muito mais tempo, reduzindo o volume de petróleo disponível no mercado internacional.
Analistas geopolíticos alertam para cenários mais graves caso a guerra se prolongue ou aumente o grau de destruição. Há estimativas que comparam os impactos iniciais a uma soma dos choques provocados pela pandemia de covid-19 e pela guerra na Ucrânia; outras avaliações consideram possível um dano econômico equiparável à crise de 2008, se o conflito se estender por meses.
Também é apontada a possibilidade de que o recuo de Washington sirva para ganhar tempo e preparar uma ofensiva terrestre, o que, por sua vez, poderia endurecer as respostas iranianas e aprofundar a crise econômica. A interrupção de outras rotas marítimas, como o estreito de Bab al-Mandeb por forças alinhadas ao Irã, é vista como capaz de provocar um colapso generalizado do mercado energético mundial.
Além do petróleo, o gás do Oriente Médio é essencial à produção de fertilizantes e ao funcionamento de fábricas de semicondutores. Cerca de 60% a 70% da produção global de chips está concentrada em Taiwan, e uma grande fabricante internacional enfrenta estoques limitados de gases críticos para processos de produção, fator que pode agravar a escassez de componentes eletrônicos.
Relatos de analistas indicam ainda pressão sobre capacidades defensivas: sistemas antimísseis como o THAAD teriam consumido parte significativa de seus estoques em confrontos anteriores, o que reduziria a capacidade de defesa de Estados Unidos e aliados em um conflito prolongado.
Apesar de serem o maior produtor de petróleo do mundo, empresas norte-americanas costumam vender combustíveis ao preço internacional, o que faria o consumidor interno nos EUA sofrer com altas nos preços dos combustíveis. Esse efeito agravaria a inflação e constituiria um problema político para a administração Trump, especialmente às vésperas das eleições legislativas de novembro, nas quais o presidente corre o risco de perder a pequena maioria que mantém no Congresso.
Por fim, analistas ressaltam que o Irã já identificou no fechamento do Estreito de Ormuz um ponto de estrangulamento econômico de grande impacto, capaz de forçar concessões a baixo custo para o país que o controle.




