O uso do crédito no consumo cotidiano vem se tornando cada vez mais frequente no país. Em compras de rotina em supermercados, postos de gasolina e farmácias, consumidores têm aceitado parcelar despesas em até três vezes sem juros, prática que já se espalha para contas que antes eram pagas à vista.
Especialistas ouvidos sobre o tema apontam que esse comportamento pode comprometer a organização do orçamento doméstico. O crédito, afirmam, deveria ser usado principalmente para a compra de bens duráveis ou de maior valor, e não como complemento da renda mensal.
A facilidade de acesso ao parcelamento também tem sido associada ao aumento da chamada ansiedade de consumo. A combinação de publicidade, ofertas constantes e influência de criadores de conteúdo nas redes sociais estimula decisões de compra antes de uma avaliação mais cuidadosa do impacto financeiro.
Segundo analistas do setor, muitos consumidores acabam decidindo apenas se a parcela cabe no orçamento imediato, sem calcular o custo total da operação nem os juros embutidos no financiamento. Isso pode levar ao uso de modalidades mais caras, como cheque especial, crédito rotativo do cartão e parcelamentos com encargos elevados.
Outro ponto de atenção é a interpretação do limite do cartão de crédito e do cheque especial como se fossem renda adicional. Especialistas reforçam que esses valores não ampliam a renda mensal do trabalhador e precisam ser pagos com o salário recebido no fim do mês.
Diante desse cenário, cresce a defesa por mais educação financeira. A orientação é que o consumidor saiba quando comprar, como financiar e quais são os riscos de cada modalidade de crédito. Também ganha espaço o debate sobre o programa Desenrola, criado para renegociar dívidas e aliviar a pressão sobre famílias endividadas.
Os dados mais recentes mostram a dimensão do problema. Em março, a inadimplência das famílias no Sistema Financeiro Nacional somava R$ 238,5 bilhões, o equivalente a 5,3% do crédito concedido a pessoas físicas, segundo o Banco Central. O índice não inclui dívidas com comércio e prestadores de serviços.
A Serasa Experian estima que 81,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes. Quase metade das dívidas em atraso está concentrada em bancos e financeiras. Entre os endividados, a maioria recebe até dois salários mínimos, o que aumenta a vulnerabilidade ao crédito mais caro.
Com menor acesso a empréstimos com desconto em folha, parte dessa população recorre a opções com juros mais altos, o que aprofunda o endividamento. Especialistas avaliam que esse movimento transfere uma fatia crescente da renda do trabalho para o sistema financeiro.




