Há mais de duas décadas, o Brasil forma mais doutoras do que doutores. Ainda assim, as mulheres seguem minoria entre docentes da graduação e da pós-graduação e recebem apenas um terço das bolsas de produtividade, reservadas a pesquisadores de maior destaque na carreira acadêmica.
Esse cenário é conhecido como “efeito tesoura”, expressão usada para descrever a redução progressiva da presença feminina à medida que a trajetória acadêmica avança. Nos últimos anos, porém, o impacto da maternidade sobre essa desigualdade passou a ganhar mais atenção.
A pesquisadora Fernanda Staniscuaski, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), observou esse problema de perto. Já em fase de consolidação da carreira, ela se tornou mãe e precisou reduzir o ritmo de trabalho. A pausa, que deveria ser temporária, acabou se estendendo e se transformando em uma dificuldade de retorno.
A partir de relatos trocados com outras cientistas mães, ela identificou que a experiência era compartilhada por muitas pesquisadoras. Em 2016, criou com outros colegas o movimento Parents in Science, voltado ao debate sobre parentalidade na ciência. Em 2026, a iniciativa completa dez anos e reúne mais de 90 integrantes, em sua maioria mulheres.
Uma das frentes do grupo é a produção de dados sobre o tema. Hoje, o país não tem levantamento oficial sobre quantos pesquisadores e professores têm filhos, o que dificulta medir o impacto da maternidade na carreira acadêmica.
Os dados reunidos pelo movimento reforçam as desigualdades. Em estudo recente sobre credenciamento e permanência na docência da pós-graduação, o grupo analisou cerca de mil professores. Entre os pais, 43,7% deixaram o programa por iniciativa própria e 37,5% foram descredenciados por baixa produtividade. Entre as mães, apenas 24,6% saíram voluntariamente, enquanto 66,1% perderam o credenciamento pelo mesmo motivo.
A pesquisa também mostra mais dificuldade de retorno entre as mulheres. Entre as docentes que saíram por perda de produtividade, 38% não conseguiram voltar, ante 25% dos homens. Entre os que pediram desligamento, o índice de não retorno foi de 25% entre mães e de 7,1% entre pais.
O recorte de gênero se soma ao racial. O grupo aponta que mulheres pretas, pardas e indígenas continuam entre as mais sub-representadas na academia, situação agravada em casos de mães de crianças com deficiência.
As barreiras começam antes mesmo da pós-graduação. A assistente social Cristiane Derne, hoje mestranda em Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), enfrentou dificuldades ainda na graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quando já era mãe. Moradora de Magé, na Baixada Fluminense, ela conciliava trabalho e deslocamentos diários até o Rio. Também lidava com a rotina de cuidados com o filho e com as exigências da universidade, como estágio, extensão e atividades complementares.
A UFRJ oferece auxílio-educação de R$ 385 para mães estudantes, mas o benefício vale apenas até a criança completar seis anos, o que não atendia à realidade de Cristiane. O apoio recebido de um coletivo de mães da universidade foi decisivo para sua permanência.
A experiência virou tema de pesquisa. No trabalho de conclusão de curso, Cristiane mapeou as políticas da UFRJ para mães e analisou como a presença ou a ausência dessas medidas afeta as estudantes. No mestrado, ela amplia o estudo para iniciativas semelhantes em todo o país.
Na semana passada, outro levantamento trouxe um retrato nacional. O Atlas da Permanência Materna, elaborado pelo Núcleo Virtual de Pesquisa em Gênero e Maternidade, reuniu as políticas adotadas pelas universidades federais. Segundo o estudo, a principal medida é o auxílio financeiro, oferecido por 63 das 69 instituições, com valor médio de cerca de R$ 370 por mês.
A pesquisa mostrou ainda que os benefícios caem na pós-graduação. Apenas 13 universidades estendem o auxílio a mestrandas e doutorandas. Só oito instituições têm cuidotecas, espaços destinados ao acolhimento de crianças durante a permanência das mães na universidade. Em março, o Ministério da Educação lançou edital de R$ 20 milhões para implantar cuidotecas em outras unidades.
A professora de geografia e doutoranda em planejamento urbano Liziê Calmon, integrante do coletivo Filhas de Sabah, também relata os desafios de conciliar maternidade e vida acadêmica. Mãe de uma menina de 10 anos, ela afirma que o acúmulo entre trabalho remunerado, cuidado e pesquisa costuma afetar a produtividade e a participação em eventos e publicações.
Ao mesmo tempo, vê a maternidade como uma experiência que amplia o olhar sobre a realidade social. Em seu doutorado, estuda a mobilidade de mulheres da Vila Cruzeiro, na Zona Norte do Rio, que se deslocam para trabalhar como empregadas domésticas em bairros distantes e de maior renda.
O coletivo ao qual ela pertence participou da articulação do Marco Legal Mães na Ciência, aprovado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e enviado para sanção do governo estadual. A proposta prevê que o trabalho de cuidado passe a contar como pontuação em seleções de bolsas e editais.
No estado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) já havia lançado, em 2024, junto com o movimento Parents in Science e o Instituto Serrapilheira, um edital específico para mães pesquisadoras. A iniciativa apoiou 134 cientistas, segundo a fundação, e deve ter nova edição em março do próximo ano.
A Faperj também adotou outra regra nos editais gerais: candidatas que se tornaram mães nos cinco anos anteriores à inscrição têm o currículo avaliado em uma janela ampliada de sete anos, dois a mais do que a regra aplicada aos demais concorrentes.
Na avaliação da direção da agência, ações desse tipo são necessárias para reduzir uma desigualdade histórica e também para fortalecer a qualidade da produção científica, já que equipes mais diversas tendem a ampliar perguntas e interpretações.
No plano nacional, a Capes lançou o programa Aurora, cujo primeiro edital prevê até 300 bolsas para professoras da pós-graduação que estejam gestantes ou sejam mães. A proposta é permitir que elas incluam um pesquisador de pós-doutorado na equipe para manter a continuidade dos projetos durante a licença-maternidade.
Nos últimos anos, também houve avanços na legislação. Em julho de 2024, foi sancionada a lei que prorroga por seis meses a conclusão de cursos de graduação e pós-graduação em casos de gestação de risco, parto, adoção ou guarda judicial. Se a estudante for bolsista, o prazo da bolsa também é estendido.
Em abril de 2025, entrou em vigor outra norma, que proíbe discriminação contra estudantes e pesquisadoras por maternidade em processos de seleção e renovação de bolsas. A lei também veta perguntas sobre o tema em entrevistas e amplia em dois anos o período de avaliação de produtividade quando houver licença-maternidade.




