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segunda-feira, maio 25, 2026

Dia da África: continente busca aproveitar crescimento da China para impulsionar seu desenvolvimento

Esta segunda-feira (25), Dia da África, destaca um continente que tem ampliado sua inserção internacional apoiado, em grande medida, na relação com a China. A parceria entre africanos e chineses avançou especialmente em obras de infraestrutura, como portos, ferrovias, energia e parques industriais.

A China se consolidou como principal parceira comercial da África há 17 anos. Em 2024, o comércio entre as partes somou US$ 295 bilhões, alta de 6% em relação ao ano anterior. No continente, a presença chinesa também se reflete nos investimentos da Nova Rota da Seda, programa de integração comercial liderado por Pequim.

Segundo levantamento do The Green Finance & Development Center, de Xangai, a África foi o principal destino dos aportes chineses na iniciativa em 2025. Do total de US$ 213 bilhões investidos no último ano, US$ 61,2 bilhões foram destinados a países africanos.

Entre os projetos em andamento, ganha destaque o Parque Industrial PK24, na região de Abdjan, capital da Costa do Marfim. A unidade foi construída em parte por uma empresa chinesa e faz parte da estratégia de ampliar a capacidade produtiva local, sobretudo no setor do cacau.

Especialistas apontam que a atuação de Pequim no continente não se limita a negócios pontuais. A lógica, segundo pesquisadores ouvidos pela Agência Brasil, é conectar áreas estratégicas por meio de corredores comerciais e logísticos, com forte aposta em portos e ferrovias.

A professora de relações internacionais da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Elga Lessa de Almeida avalia que a presença chinesa costuma ser vista como mais vantajosa do que a de antigas potências coloniais europeias ou a dos Estados Unidos. Em países como Moçambique e Angola, interlocutores relatam que, nos acordos com Pequim, as prioridades são definidas pelos próprios governos africanos.

Além da China, a Rússia também ampliou sua atuação no continente. O país tem se aproximado de governos africanos em áreas como energia e, mais recentemente, em projetos nucleares. A Etiópia é um dos países que firmaram acordos recentes nesse campo.

Um dos casos mais simbólicos da relação entre China e África é o de Angola. Após a guerra civil, iniciada em 1975 e encerrada em 2002, o país recorreu a financiamento chinês para reconstrução. O pagamento de parte dos empréstimos foi vinculado ao petróleo angolano, que durante anos abasteceu majoritariamente o mercado chinês.

Ao longo do tempo, Angola reduziu a dependência desse modelo e passou a investir em refinarias. A segunda unidade do país foi concluída em 2025, em Cabinda. Outras duas estão previstas, uma em construção em Lobito e outra ainda em fase de projeto, em Soyo.

O endividamento africano com a China é considerado um ponto de atenção por analistas, principalmente quando compromete o orçamento público. Ainda assim, a avaliação é de que parte desses recursos financia infraestrutura com efeitos duradouros, diferente de dívidas voltadas apenas ao consumo.

A disputa por influência no continente também envolve os Estados Unidos. Washington tem buscado ampliar sua presença na África, sobretudo em áreas ligadas a minerais críticos e terras raras, fundamentais para tecnologias avançadas, defesa e transição energética. Estimativas apontam que cerca de 30% dessas reservas estão em território africano.

Nesse contexto, a República Democrática do Congo ocupa posição central. O país concentra cerca de 70% da produção mundial de cobalto, usado na fabricação de baterias de celulares e carros elétricos. A negociação de paz entre Congo e Ruanda, mediada pelos EUA, passou a ser observada também sob a ótica do acesso a esses recursos.

A nova diretriz de segurança nacional do governo Donald Trump já sinalizou mudança de postura em relação ao continente. O documento defende a substituição do foco em ajuda humanitária por uma agenda centrada em comércio e investimento.

Para tentar equilibrar a presença chinesa, os EUA também investiram em obras de infraestrutura. Um dos exemplos é o Corredor de Lobito, em Angola, projeto ferroviário que começou com financiamento da China e passou a receber recursos americanos. Em dezembro de 2024, o então presidente Joe Biden anunciou um aporte de US$ 600 milhões na iniciativa.

Analistas destacam, porém, diferenças entre os modelos de atuação de China e EUA. Enquanto Pequim aposta sobretudo em infraestrutura e integração econômica, Washington tende a concentrar esforços em segurança, defesa e acesso a matérias-primas.

No plano político, os países africanos também têm buscado ampliar sua autonomia. A União Africana, sediada na Etiópia, é hoje uma das principais ferramentas desse processo. A entidade sucedeu a antiga Organização da Unidade Africana, criada em 25 de maio de 1963, data celebrada como Dia da África.

A agenda continental inclui a meta de integração econômica e expansão da infraestrutura. Em 2013, a União Africana lançou a Agenda 2063, que prevê a criação de um mercado comum e de uma rede logística capaz de conectar melhor as economias do continente.

Outro passo importante foi a entrada em vigor, em 2021, da Zona de Livre Comércio Continental Africana. O acordo reúne 54 dos 58 países do continente e busca reduzir tarifas e ampliar o comércio intra-africano, que hoje responde por cerca de 15% a 20% do total.

Para especialistas, a África vive hoje um momento mais favorável do que o observado no período imediatamente posterior às independências, na segunda metade do século 20. A reorganização da ordem internacional e a disputa entre grandes potências abrem espaço para maior margem de decisão dos governos africanos.

O cenário, no entanto, continua marcado por heranças históricas profundas. Entre os séculos 16 e 19, o continente foi fortemente impactado pelo comércio transatlântico de pessoas escravizadas. Já a colonização direta europeia, intensificada a partir da segunda metade do século 19, fragmentou territórios e subordinou economias africanas aos interesses externos.

Mesmo após os processos de independência, nas décadas de 1950 e 1960, muitos países permaneceram em relações desiguais com antigas metrópoles europeias. A falta de indústrias, hospitais, escolas e infraestrutura básica ainda é um desafio em grande parte do continente.

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