# Abin aponta risco de interferência dos EUA nas eleições brasileiras
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviou, no fim de agosto, um relatório reservado à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça sobre possíveis ações dos Estados Unidos capazes de influenciar ou interferir nas eleições brasileiras.
O documento também identifica uma tendência de aumento da pressão de Washington sobre o Brasil. As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo e confirmadas pela TV Brasil.
Segundo o relatório, a estratégia norte-americana para a América Latina inclui a preservação de influência na região e a redução da presença de países considerados rivais, como a China, em áreas estratégicas, recursos naturais e infraestruturas.
A avaliação da inteligência brasileira considera que medidas políticas e econômicas adotadas pelos Estados Unidos contra o Brasil se intensificaram nos últimos meses.
## Tarifas e sanções
Desde abril de 2025, produtos brasileiros passaram a enfrentar tarifas para entrar no mercado norte-americano. A alíquota inicial foi de 10%, dentro de uma política aplicada a diversos países.
Em julho daquele ano, uma ordem executiva elevou a tarifa total sobre produtos brasileiros para 50%. Entre os fatores relacionados à medida estavam decisões da Justiça brasileira sobre a atuação de plataformas digitais e o processo que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
As restrições impostas no Brasil a redes sociais como X e Rumble foram associadas pelo Supremo Tribunal Federal ao combate à disseminação de discursos de ódio e ataques à democracia.
Além das tarifas, os Estados Unidos aplicaram a Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, relator dos processos sobre a trama golpista, e à advogada Viviane Barci Moraes, mulher do magistrado. As sanções incluem bloqueio de ativos nos Estados Unidos, limitação de transações com empresas norte-americanas e proibição de entrada no país.
Na mesma ocasião, tiveram vistos cancelados os ministros Luís Roberto Barroso, Edson Fachin, Cármen Lúcia, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. Em dezembro de 2025, Moraes e Viviane Barci Moraes foram retirados da lista de sancionados pela Lei Magnitsky.
## Atuação de Eduardo Bolsonaro
O deputado federal Eduardo Bolsonaro estava nos Estados Unidos quando as medidas foram adotadas. Ele afirmou ter atuado junto a autoridades americanas para a aplicação de sanções e tarifas contra o Brasil.
O parlamentar foi denunciado por coação no curso do processo, sob acusação de incentivar ações externas para pressionar a Justiça brasileira no julgamento de seu pai. Em junho de 2026, ele foi condenado pelo STF e perdeu o mandato por faltas às sessões da Câmara dos Deputados. Eduardo Bolsonaro permanece nos Estados Unidos.
## Novas cobranças comerciais
Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte dos Estados Unidos invalidou tarifas globais impostas pelo governo Donald Trump. A decisão concluiu que a medida invadia atribuições do Congresso e determinou a devolução de bilhões de dólares arrecadados.
Mesmo após o julgamento, Washington anunciou novas taxas sobre mercadorias brasileiras. Em 22 de julho, uma sobretaxa de 25% alcançou 19% das exportações do Brasil para os Estados Unidos.
A medida foi vinculada a alegações de práticas comerciais consideradas desleais, incluindo o uso do Pix, a regulação de redes sociais, o desmatamento ilegal e acordos preferenciais com México e Índia.
Dias depois, outra tarifa, de 12,5%, foi imposta sob alegação de insuficiência de medidas brasileiras contra a importação de bens produzidos com trabalho forçado. Com isso, parte dos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos passou a poder enfrentar tributação de até 37,5%.
## Facções e relação diplomática
Em maio deste ano, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.
O governo brasileiro buscou impedir a medida, por avaliar que a designação poderia abrir espaço para sanções mais severas, impactos sobre setores econômicos e financeiros e eventual atuação externa em território nacional.
No dia 4 de agosto, os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi relacionada ao processo de aprovação do indicado norte-americano para comandar a embaixada dos EUA no Brasil.
O governo brasileiro contestou a justificativa e informou que a divulgação antecipada do nome indicado contrariou regras previstas na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
## Contatos entre Lula e Trump
Apesar do agravamento das disputas comerciais e diplomáticas, os governos dos dois países mantiveram canais de diálogo. Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump tiveram um breve encontro durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025, e voltaram a se reunir no mês seguinte, em Kuala Lumpur, na Malásia, durante a cúpula da Asean.
O encontro mais recente ocorreu em maio deste ano, em Washington. Na reunião, que durou mais de três horas, Lula apresentou documentos sobre a balança comercial entre os dois países e discutiu a criação de uma mesa de negociação entre as equipes governamentais.
Também foram tratados temas ligados ao combate ao crime organizado e ao tráfico internacional de armas e drogas. Em abril, Brasil e Estados Unidos haviam anunciado cooperação bilateral nessa área.
Os dois presidentes conversaram por telefone ao menos quatro vezes. A ligação mais longa, com duração de 1 hora e 20 minutos, ocorreu em agosto e abordou negociações comerciais e conflitos internacionais.
Lula e Trump devem participar da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, na próxima terça-feira (22). O presidente brasileiro fará o discurso de abertura do Debate Geral, seguido pelo chefe da Casa Branca. Até o momento, não há reunião bilateral confirmada entre os dois.




