# Feira em Fortaleza debate políticas sobre drogas, saúde e impactos do encarceramento
A segunda edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, reuniu especialistas e representantes de organizações ligadas ao debate sobre cannabis, saúde pública e políticas de drogas. O evento ocorreu no Anfiteatro Sérgio Motta, no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Os painéis defenderam a escolha de representantes políticos com conhecimento sobre a área e compromisso com medidas associadas à justiça social. Entre os temas abordados estiveram o acesso à cannabis medicinal, a seletividade do sistema de segurança e Justiça e os efeitos econômicos e sociais do encarceramento por crimes relacionados a drogas.
A médica de família e comunidade Magda Almeida, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), tratou do uso terapêutico da cannabis e das limitações de tratamentos padronizados. A discussão incluiu o emprego de pregabalina, medicamento prescrito para condições como epilepsia, ansiedade e fibromialgia, mas que pode provocar efeitos adversos, entre eles alterações de humor, perda de memória, alucinações, desmaios e sintomas de abstinência quando interrompido de forma abrupta.
Dados da Blis Data, plataforma que reúne informações sobre usuários de cannabis medicinal na América Latina, apontam mulheres mais velhas e empregadas como o principal grupo consumidor de produtos importados no Brasil. Os usos mais frequentes estão ligados ao alívio de dores crônicas e distúrbios do sono.
O 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) indica que a cannabis é a substância ilícita mais consumida no país. Na comparação entre os dados de 2022 e 2023 com os de 2012, a prevalência do uso dobrou entre adultos e adolescentes. Segundo o estudo, 54% dos usuários relataram consumo diário por pelo menos duas semanas seguidas, o que representa 3,3% da população brasileira, ou mais de 3,9 milhões de pessoas.
## Segurança pública e crime organizado
Os debates também relacionaram a política de drogas ao encarceramento da população negra, à atuação policial e ao avanço de facções e milícias.
Levantamento do Datafolha encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) estimou que 68,7 milhões de brasileiros, o equivalente a quatro em cada dez pessoas, convivem com a presença dessas organizações criminosas em seus locais de moradia. Nas capitais, o índice chega a 55,9%.
A pesquisa apontou ainda que 34,9% dos entrevistados enfrentam interferência intensa do crime organizado no cotidiano. Nos 12 meses anteriores ao levantamento, 40,1% da população afirmou ter sofrido algum tipo de violência. Entre moradores de áreas sob influência de facções ou milícias, o percentual foi de 51,1%.
Outro ponto abordado foi a diferença entre a expansão do mercado regulado de cannabis medicinal e as prisões relacionadas ao porte de pequenas quantidades da substância. O tema foi associado aos custos suportados por famílias de pessoas encarceradas.
Relatório da Pastoral Carcerária Nacional, divulgado no fim de agosto, estimou que a compra de itens básicos de alimentação e higiene para presos consome, em média, cerca de 70% de um salário mínimo das famílias que realizam visitas semanais. O gasto anual total foi calculado em R$ 4,33 bilhões.
Estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) apontou despesas de R$ 7,7 bilhões em 2023 para a aplicação da Lei de Drogas em seis unidades da Federação: Bahia, Distrito Federal, Pará, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo.
Já dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que os homicídios associados à proibição das drogas geram um custo aproximado de R$ 50 bilhões por ano, valor equivalente a 0,77% do Produto Interno Bruto brasileiro.
A Febre de Arte foi organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica. Nesta edição, o evento contou com a participação da Auê Feira, que levou à programação a Rua das Associações, espaço destinado a entidades do Nordeste que atendem pacientes em tratamento com cannabis medicinal.




