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segunda-feira, abril 27, 2026

Projeto oferece tratamento gratuito para doenças negligenciadas no Amazonas

Pouco depois de completar 20 anos, o seringueiro e agricultor familiar Augusto Bezerra da Silva foi diagnosticado com a Doença de Jorge Lobo (lobomicose). Aos 65 anos, ele ainda convive com as sequelas, mas registrou redução das lesões faciais após integrar o projeto Aptra Lobo e iniciar tratamento gratuito.

A lobomicose é uma micose rara, descrita pela primeira vez em 1931, que provoca nódulos semelhantes a queloides em orelhas, braços, pernas e outras áreas da pele. A infecção ocorre pela penetração do fungo em feridas cutâneas. As lesões podem provocar dor, coceira, inflamação e, em casos avançados, desfiguração. A exposição ao sol tende a agravar o quadro.

A doença é endêmica da Amazônia Ocidental e costuma afetar populações ribeirinhas, povos indígenas e trabalhadores extrativistas — grupos com acesso limitado a serviços de saúde. Dados do Ministério da Saúde apontam 907 casos registrados até o momento, sendo 496 no Acre.

Aptra Lobo e atendimento pelo SUS
Frente à ausência de diagnóstico e tratamento padronizados, o Ministério da Saúde criou o projeto Aptra Lobo para estruturar o manejo da lobomicose no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa acompanha 104 pacientes na Região Norte, com atuação nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia.

O projeto reúne assistência, pesquisa clínica e geração de evidências para subsidiar diretrizes no SUS. A coordenação técnica é realizada pelo Hospital Israelita Albert Einstein em parceria com a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, no âmbito do Proadi-SUS.

Resultados e tratamento
Mais da metade dos participantes do Aptra Lobo teve redução das lesões. O tratamento baseia-se no antifúngico itraconazol, disponível no SUS, com doses ajustadas individualmente. Também são oferecidos diagnóstico local — incluindo biópsias e exames laboratoriais — acompanhamento clínico, e cirurgias para remoção de lesões em casos selecionados.

Desafios de acesso
O projeto conta com equipes locais responsáveis pela busca ativa de pacientes, diagnóstico e seguimento conforme as diretrizes estabelecidas. O acompanhamento é realizado a cada três meses, com suporte de centros de referência em Rio Branco, Manaus e Porto Velho. A distância e a geografia das comunidades ribeirinhas dificultam o contato regular; por isso, a iniciativa prevê ajuda de custo para transporte e expedições a áreas de difícil acesso.

Material técnico e próximos passos
Em dezembro do ano passado, o Aptra Lobo lançou um manual com ferramentas práticas para melhorar o diagnóstico, tratamento e prevenção da lobomicose, além de orientar a atenção às populações afetadas.

Os organizadores planejam, a partir dos dados coletados sobre o uso de itraconazol, elaborar um Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) previsto para 2026. Também está em estudo a renovação do projeto para garantir continuidade e deixar um legado permanente no cuidado aos pacientes, com o objetivo de reduzir o histórico de negligência associado à doença.

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