O governo do ultraliberal Javier Milei atravessa seu momento mais difícil desde a chegada ao poder, em meio a investigações por corrupção, queda da popularidade e piora nos indicadores econômicos e industriais.
A inflação, que havia sido apresentada como principal conquista da Casa Rosada ao reduzir a alta mensal de dois dígitos no fim de 2023 para cerca de 2% ao mês, voltou a acelerar em 2025. Entre o fim do ano passado e o início de 2026 os preços subiram novamente, alcançando 3,4% em março.
A atividade econômica registrou retração de 2,6% em fevereiro na comparação com janeiro. No acumulado dos últimos 12 meses, a queda foi de 2,1%.
O setor industrial mostra desempenho ainda mais preocupante. A produção industrial caiu 4% em fevereiro e acumula recuo de 8,7% nos 12 meses encerrados no mesmo mês.
O plano econômico do governo prioriza a redução do tamanho do Estado, com cortes de gastos e medidas de austeridade como forma de controlar a inflação e recuperar a economia. Para sustentar o peso, o país tem contraído novos empréstimos em dólares junto a bancos internacionais.
Casos de corrupção também abalam o governo. Está em investigação o suposto enriquecimento ilícito do chefe de gabinete Manuel Adorni, envolvendo questionamentos sobre viagens e aquisições e reformas de imóveis. A sequência de denúncias contribui para a perda de apoio popular.
Pesquisas de opinião mostram índices de desaprovação superiores a 60% desde o início do mandato. Uma sondagem da Atlas Intel, no fim de abril, indicou 63% de reprovação e 35% de aprovação. Outra consultoria, a Zentrix, apontou que 66,6% dos entrevistados consideram que a promessa de combate à corrupção foi quebrada; segundo essa pesquisa, a corrupção passou a ser a principal preocupação dos cidadãos, inclusive entre eleitores do partido governista em 2025.
Em meio ao quadro político e econômico adverso, a agência de risco Fitch elevou a nota de crédito soberano da Argentina de CCC+ para B-, com perspectiva estável, citando melhorias na situação fiscal e na balança externa. A avaliação da agência impulsionou a alta da bolsa de Buenos Aires na quarta-feira (6), mas os indicadores reais de atividade e produção seguem em queda.
Também houve episódios de tensão entre o governo e a imprensa. No fim de abril, o acesso de repórteres à Casa Rosada foi proibido, afetando cerca de 60 profissionais que cobrem o Executivo. Algumas emissoras foram acusadas de filmagens não autorizadas, o que as empresas de mídia negaram. Após críticas sobre restrições à liberdade de imprensa, a entrada de jornalistas foi retomada na segunda-feira (3), embora a circulação na sede do poder continue limitada.
O conjunto de dados reúne desafios econômicos, problemas administrativos e desgaste político que colocam a administração Milei em situação delicada para os próximos meses.




