## Flexibilização de regras para armas nos EUA pode afetar tráfico ilegal no Brasil
O pacote de 34 medidas do governo Donald Trump para afrouxar normas de venda de armas nos Estados Unidos acendeu alerta no Brasil diante do peso do mercado norte-americano no abastecimento ilegal de armamentos em outros países.
As mudanças foram apresentadas pelo Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos EUA, conhecido pela sigla ATF. Entre os pontos previstos estão a autorização para compra de armas pelos correios, a redução do prazo obrigatório para manutenção de registros de venda por comerciantes e regras menos rígidas para checagem de antecedentes de compradores.
Os Estados Unidos aparecem como uma das principais origens de armas desviadas para grupos criminosos em diferentes regiões. No México, 80% das armas apreendidas com cartéis de drogas são provenientes do país vizinho. No Haiti, estimativas da Organização das Nações Unidas indicam que a maior parte do arsenal usado por gangues que controlam cerca de 80% de Porto Príncipe também tem origem norte-americana.
Levantamento com dados do ATF reunidos em pesquisa da Universidade de Harvard mostra que 73% das armas de fogo apreendidas em países do Caribe entre 2018 e 2022 vieram dos Estados Unidos.
No Brasil, estudo publicado no periódico britânico Journal of Illicit Economies and Development analisou apreensões de 1,7 mil fuzis ilegais no Sudeste entre 2019 e 2023. O levantamento apontou que 54% desse armamento tinha origem norte-americana.
Quando consideradas todas as armas de fogo de estilo militar apreendidas na Região Sudeste, e não apenas fuzis, o Brasil aparece como principal país de origem, seguido por Estados Unidos, Alemanha e Bélgica.
A pesquisa também destaca limitações na produção de dados sobre armas ilegais no país. Em muitos casos, a origem do armamento apreendido não é identificada, o que dificulta uma avaliação mais precisa das rotas do tráfico.
Outro ponto de atenção é o envio de peças e componentes de armas. Partes desmontadas podem circular com menor risco de identificação em fiscalizações, especialmente quando enviadas em remessas postais e sem controle adequado.
Além do pacote de flexibilização interna, o governo Trump revogou, em setembro de 2025, restrições à exportação de armas de fogo para 36 países. A lista inclui nações vizinhas do Brasil, como Paraguai, Colômbia, Suriname, Bolívia e Peru, algumas delas com histórico de desvio de armamentos para o crime organizado.
O Departamento de Comércio dos Estados Unidos apresentou a mudança como uma forma de ampliar oportunidades para fabricantes norte-americanos no mercado externo.
As medidas ocorrem em um contexto de forte expansão da indústria de armas e munições nos Estados Unidos. Entre 2008 e 2024, o setor registrou aumento de 379% no faturamento e crescimento de 130% no número de empregos, segundo a associação comercial da indústria de armas de fogo dos EUA. No período, o setor chegou a US$ 91,7 bilhões em receitas e 382 mil postos de trabalho.




