Estudo alerta para melanoma em regiões além da pele

# Melanoma pode surgir fora da pele e exige diagnóstico precoce, aponta Fundação do Câncer

O melanoma não ocorre exclusivamente na pele. Embora seja originado nos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, o tumor também pode atingir os olhos, mucosas da cavidade oral e órgãos dos sistemas genital e digestório.

Menos comum do que outros cânceres de pele, o melanoma é considerado mais agressivo por apresentar maior risco de metástase, com possibilidade de alcançar outros tecidos e órgãos.

A Fundação do Câncer reuniu dados sobre a doença na 12ª edição do boletim *Análises e Tendências em Câncer*, dedicada aos melanomas cutâneos e extracutâneos. O levantamento utiliza informações da plataforma info.oncollect, que reúne registros hospitalares de oncologia no país.

## Cirurgia é o tratamento inicial mais frequente

Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento padrão para o melanoma inclui a retirada cirúrgica da lesão primária e, quando necessário, dos linfonodos comprometidos.

Entre 2014 e 2023, a cirurgia foi o principal tratamento inicial para melanoma de pele no Brasil, respondendo por 84,7% dos procedimentos registrados. O Sudeste teve o maior percentual de casos tratados inicialmente com cirurgia, de 89,6%, enquanto o Norte registrou a menor proporção, de 64,4%.

A maior parte dos pacientes realizou o tratamento oncológico na própria região onde vivia. O Centro-Oeste apresentou a maior necessidade de deslocamento para outras localidades, com 20,2% dos pacientes buscando atendimento fora de sua região.

O enfrentamento da doença depende de medidas de prevenção, diagnóstico em estágios iniciais, registros hospitalares qualificados, acesso rápido ao tratamento e integração entre atenção básica, dermatologia, oftalmologia, oncologia e outras especialidades.

## Imunoterapia tem uso limitado no SUS

Além da cirurgia, a quimioterapia é empregada no tratamento de melanomas. Nos últimos anos, o país aprovou medicamentos de imunoterapia para alguns casos da doença.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, em 2016, o uso dos medicamentos anti-PD-1 nivolumabe e pembrolizumabe. Mais recentemente, também foi aprovado o tebentafuspe, indicado para melanoma ocular metastático ou inoperável.

Em 2020, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) aprovou nivolumabe e pembrolizumabe como as primeiras imunoterapias incorporadas ao sistema público para melanoma metastático.

Apesar dos avanços, o acesso a esses tratamentos ainda é restringido pelo alto custo dos medicamentos. O Ministério da Saúde discute mudanças nas normas da Assistência Farmacêutica em Oncologia no SUS, conhecida como AF-Onco, com previsão de ampliar o acesso a terapias oncológicas, incluindo a imunoterapia para melanoma metastático.

A compra centralizada de medicamentos e o fortalecimento da produção nacional são apontados como alternativas para reduzir custos e ampliar a oferta desses tratamentos na rede pública. Ainda estão em negociação os mecanismos de aquisição, distribuição e repasse dos medicamentos a hospitais habilitados como Unacons e Cacons.

No caso do melanoma extracutâneo, as evidências sobre a efetividade da imunoterapia ainda são limitadas. Tecnologias mais recentes podem ser usadas em conjunto com tratamentos já consolidados, conforme a indicação clínica e a estrutura disponível no sistema de saúde.

## Melanoma ocular é o tipo extracutâneo mais comum

O estudo epidemiológico baseado em registros hospitalares avaliou 42.255 casos de melanoma no Brasil. Desse total, 92,2% eram tumores de pele, 5,7% eram oculares e 2,5% atingiam mucosas.

Entre 1990 e 2021, foram registrados 1.324 casos novos de melanoma extracutâneo no país: 523 em homens e 801 em mulheres.

O olho foi o local mais frequente da doença fora da pele, representando 75% dos casos. Em seguida aparecem os órgãos genitais, com 12,8%, e o sistema digestório, com 8,2%.

Dos 993 casos de melanoma ocular analisados, 546 ocorreram em mulheres e 447 em homens. Nas fases iniciais, esse tipo de tumor pode não apresentar sintomas e ser identificado apenas em exames oftalmológicos de rotina.

Entre os possíveis sinais estão visão embaçada, flashes luminosos, manchas no campo visual e perda da visão. Como esses sintomas não são exclusivos da doença, o diagnóstico pode ser retardado.

## Exposição solar é principal fator de risco para melanoma de pele

A radiação ultravioleta é o principal fator de risco para os cânceres de pele. O risco varia conforme o tipo de pele e é maior entre pessoas de pele clara, além de estar relacionado à intensidade e à frequência da exposição solar.

Embora o câncer de pele seja o mais comum no Brasil, o melanoma representa cerca de 4% dos tumores malignos que atingem esse órgão. Mesmo assim, tem maior potencial de disseminação em comparação com outros tipos de câncer de pele.

De 1990 a 2021, o país registrou 30.614 novos casos de melanoma cutâneo. As mulheres concentraram 15.714 diagnósticos, equivalentes a 51,3% do total, enquanto os homens responderam por 14,9 mil casos, ou 48,7%.

As áreas mais atingidas foram o tronco, com 22,4% dos casos, os membros inferiores, com 19,1%, e os membros superiores, com 13,8%. Entre os homens, foram mais frequentes os diagnósticos na orelha, couro cabeludo, pescoço e tronco. Entre as mulheres, predominaram os tumores na face e nos membros inferiores e superiores.

## Brasil registrou mais de 2 mil mortes em 2023

Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que 2.047 pessoas morreram por melanoma de pele no Brasil em 2023. Foram 1.176 óbitos entre homens, taxa de 1,14 morte por 100 mil homens, e 871 entre mulheres, equivalente a 0,8 morte por 100 mil mulheres.

Na média entre 2020 e 2024, o país registrou seis mortes por melanoma a cada 1 milhão de habitantes. A taxa foi maior entre homens, com oito óbitos por 1 milhão, ante cinco por 1 milhão entre mulheres.

O Sul concentrou as maiores taxas de incidência de melanoma cutâneo, com 44,4 casos por 1 milhão de habitantes, mais que o dobro da média brasileira, de 19,2 casos por 1 milhão. Na região, o tumor ocupa a sétima posição entre os cânceres mais incidentes em mulheres e a nona entre os homens.

Já regiões com menor incidência e mortalidade, como o Norte, apresentaram maior letalidade. O cenário está associado a diagnósticos tardios e a dificuldades de acesso à assistência especializada.

Para o triênio 2026-2028, o Inca estima 9.360 novos casos de melanoma de pele no Brasil. A previsão é de 19,2 diagnósticos por 1 milhão de habitantes, com taxa maior entre homens, de 23,8 casos por 1 milhão, do que entre mulheres, de 17,3 por 1 milhão.

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