No Dia Internacional da Dança, 29 de abril, foi lançado um projeto pernambucano que recupera a trajetória de mulheres que atuaram nos cassinos do estado entre as décadas de 1930 e 1950.
Intitulado Bailarinas em Suspeição: Mulher, Dança e Trabalho nos Cassinos Pernambucanos, o trabalho foi divulgado em 29 de abril e reúne investigação acadêmica e produção audiovisual.
A iniciativa é liderada pela artista, pesquisadora e videomaker Marcela Rabelo. Entre as produções resultantes estão um artigo científico e uma videodança publicada em plataforma de vídeo online. Também foi criada uma página na internet que funciona como acervo digital, reunindo o artigo, a videodança, materiais consultados na pesquisa e documentos históricos.
A investigação apoiou-se em amplo levantamento documental. Foram sistematicamente analisados jornais, revistas e, em especial, fichas e prontuários do antigo DOPS — Departamento de Ordem Política e Social, órgão de polícia ativo entre o Estado Novo e a Ditadura Militar.
Parte do material consultado veio do projeto Obscuro Fichário dos Artistas Mundanos (2016), da pesquisadora e jornalista Clarice Hoffmann. Hoffmann integra a equipe do novo projeto ao lado da professora e antropóloga Selma Albernaz.
Ao todo, cerca de 90 mulheres, brasileiras e estrangeiras, foram mapeadas. As trajetórias identificadas combinam intensa produção artística com vigilância policial e estigmatização social.
Os documentos da época registram variadas categorias profissionais — como bailarina clássica, de salão, vedete, fantasista, sambista, rumbeira, sapateadora, acrobata e integrantes de coros — e mostram que essas classificações frequentemente vinham acompanhadas por discurso moralizante e escrutínio que se estendia além dos palcos.
As fichas do DOPS evidenciam um olhar de suspeição sobre as artistas, baseado em critérios como nacionalidade, tipo de dança, estado civil, raça e circulação entre cidades e países. O projeto propõe, assim, uma releitura crítica das condições de trabalho e das narrativas construídas em torno dessas mulheres.




