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terça-feira, maio 5, 2026

Aumento do consumo de alimentos ultraprocessados entre povos tradicionais

Um estudo com dados de 2015 a 2022 aponta aumento do consumo de alimentos ultraprocessados entre povos e comunidades tradicionais no Brasil, enquanto alimentos historicamente presentes na dieta dessas populações, como frutas e feijão, perderam espaço.

A pesquisa analisou 21 povos e comunidades tradicionais, incluindo quilombolas, ribeirinhos, agroextrativistas, povos de terreiros, povos ciganos, pescadores artesanais, caiçaras e povos indígenas não aldeados. O levantamento foi conduzido pela nutricionista Greyceanne Dutra Brito, doutoranda em Saúde Pública na Universidade Federal do Ceará (UFCE), com base em dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) do Ministério da Saúde.

Os resultados variaram entre os grupos, mas o quadro geral foi considerado desfavorável. A maioria das comunidades estudadas vive em territórios rurais e pratica agricultura familiar.

Principais achados
– Crianças de 2 a 4 anos: aumento no consumo de hambúrgueres e embutidos de 3,87% no período 2015–2022.
– Crianças de 5 a 9 anos: aumento de 5,59% no consumo de hambúrgueres e embutidos no mesmo intervalo.
– Gestantes adolescentes: redução anual de 3,65% no consumo de feijão e de 2,9% no consumo de frutas frescas. Também foram observadas quedas anuais no consumo de alguns itens ultraprocessados — 1,18% para esse conjunto, 3,22% para bebidas adoçadas e 3,31% para biscoitos recheados e doces.
– Gestantes adultas: redução anual de 2,11% no consumo de frutas frescas e aumento anual de 0,71% no consumo de verduras e legumes.
– Adultos: aumento anual de 4,7% no consumo de hambúrgueres e embutidos e crescimento anual de 3,3% no consumo de verduras e legumes.
– Idosos: aumento anual de 5,84% no consumo de hambúrgueres e embutidos e de 1,78% no consumo de verduras e legumes.

Fatores de acesso
Os pesquisadores observaram que o acesso a alimentos ultraprocessados nessas populações tem sido facilitado por fatores como mobilidade, baixo custo desses produtos, apelo publicitário e a expansão de aplicativos de delivery, o que facilita a entrada desses alimentos em territórios majoritariamente rurais.

Impactos à saúde
O consumo frequente de ultraprocessados pode resultar em deficiências nutricionais — como falta de ferro, fibras, vitaminas e minerais — e está associado a maior risco de doenças crônicas não transmissíveis, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e obesidade.

Implicações e recomendações
O estudo, pioneiro ao avaliar tendências temporais de marcadores alimentares de povos e comunidades tradicionais em âmbito nacional, fornece subsídios para políticas públicas. Entre as medidas apontadas pelos pesquisadores estão a regulação da comercialização de alimentos ultraprocessados e a implementação de estratégias de educação alimentar e nutricional dirigidas a essas populações.

Os autores também relacionam a garantia do direito ao território e o fortalecimento do cultivo de alimentos próprios como ações fundamentais para a promoção de dietas saudáveis nessas comunidades.

Equipe e financiamento
A pesquisa contou com participação de pesquisadores da Universidade de Fortaleza (Unifor), da Universidade Estadual do Ceará (UECE), da Universidade de São Paulo (UDP), da Fiocruz-CE e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo foi financiado pelo CNPq, pelo Ministério da Saúde e pela Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).

Divulgação
O trabalho terá divulgação oficial no dia 11, com publicação na revista Ciência & Saúde Coletiva.

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