As redes municipais de ensino no Brasil ainda avançam mais em ações de letramento e experiências com linguagem na educação infantil do que em iniciativas ligadas à matemática. É o que mostra o relatório **Percepções e Desafios da Educação Infantil Pública**, divulgado nesta segunda-feira (25) pelo Itaú Social em parceria com a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime).
Segundo o estudo, 76% dos municípios adotam estratégias voltadas à linguagem e à cultura escrita na primeira infância. Já o letramento matemático aparece em 48% das redes. Em 20% das secretarias municipais, não há iniciativas desse tipo para a educação infantil.
Concluído no fim do ano passado, o levantamento ouviu 2.712 redes municipais de ensino, o equivalente a 49% do total do país. A cobertura foi de cerca de metade dos municípios em todas as regiões, com exceção do Norte, onde alcançou 62%, e do Sudeste, com 33%.
O relatório também mostra que 23% das prefeituras não sabem informar se as unidades conveniadas da pré-escola adotam estratégias semelhantes. Essas instituições parceiras são contratadas quando o município precisa ampliar rapidamente a oferta de vagas.
Na avaliação do estudo, a falta de monitoramento e de apoio técnico pode ampliar desigualdades dentro da própria rede. A divulgação do diagnóstico reforça a necessidade de regras mínimas de acompanhamento para unidades próprias e conveniadas.
Entre as ações já consolidadas pelas secretarias municipais, 62% das redes dizem apoiar as escolas no contato das crianças com a natureza e o meio ambiente. Outras 58% oferecem formação continuada voltada ao desenvolvimento infantil, enquanto 56% realizam ações para garantir acesso e permanência dos alunos.
O levantamento aponta ainda que 67% das redes recebem algum tipo de apoio das secretarias estaduais de educação para a etapa da educação infantil, principalmente em formações e suporte técnico. Apesar disso, um terço dos municípios não conta com qualquer auxílio estadual. As principais demandas são recursos financeiros, capacitações e fornecimento ou empréstimo de materiais didáticos.
Na organização pedagógica, 63% dos municípios seguem a matriz curricular estadual, em regime de colaboração; 34% usam currículo próprio em sala de aula; e 2% afirmam não ter currículo para a educação infantil. Na pré-escola, 78% das redes adaptaram o Projeto Político-Pedagógico às diretrizes em vigor. Mesmo assim, 37% das secretarias relatam dificuldades para alinhar esse documento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
A transição da pré-escola para o 1º ano do ensino fundamental também aparece como um ponto frágil. O estudo informa que 17% das redes não fazem planejamento articulado entre as duas etapas e 13% não usam estratégias básicas de acompanhamento, como portfólios. O relatório destaca que a passagem entre uma etapa centrada em brincadeiras e interações e outra com maior foco em conteúdos ainda é mal estruturada em muitas redes.
A infraestrutura das unidades é apontada como o principal desafio da gestão da educação infantil, citada por 23% dos entrevistados. Entre os problemas relatados estão falta de recursos para manutenção, investimento insuficiente em prédios e materiais pedagógicos e dificuldade para ampliar vagas em creches.
A inclusão de crianças com deficiência ou neurodivergências aparece em seguida, mencionada por 15% dos gestores. O estudo indica que a expansão do acesso à educação infantil precisa vir acompanhada de adaptações físicas, compra de materiais específicos e consolidação de práticas inclusivas no cotidiano escolar.
Na oferta para grupos historicamente vulnerabilizados, apenas 28% das secretarias municipais conseguem desenvolver propostas voltadas à educação do campo, indígena e quilombola.
A formação continuada de professores e gestores também surge entre os principais obstáculos. As redes relatam falta de capacitação adequada sobre desenvolvimento infantil, escassez de equipes para ministrar as formações e baixa adesão dos profissionais aos cursos oferecidos. Em geral, os temas ligados ao trabalho pedagógico são tratados com maior frequência, enquanto conteúdos sobre inclusão e diversidade costumam aparecer em encontros semestrais.
O estudo ainda mostra que 20% das redes não oferecem formação às unidades conveniadas ou promovem ações mais curtas do que as destinadas às escolas próprias. O relatório defende que a formação continuada também alcance essas unidades, sobretudo em um contexto de fragilidades na formação inicial de parte dos docentes.
Por fim, o diagnóstico conclui que as políticas para a educação infantil precisam ir além da abertura de vagas e priorizar a qualificação dos ambientes, a integração entre redes e o apoio técnico e financeiro aos municípios. A expansão do tempo integral e a gestão de novas vagas em creches aparecem empatadas, com 8% das menções entre os desafios da área.




