O Equador intensificou a militarização da segurança pública e ampliou a cooperação com os Estados Unidos em meio ao estado de exceção em vigor em grande parte do país. Ao mesmo tempo, o governo passou a conceder imunidade penal a civis, militares e estrangeiros envolvidos em operações de repressão estatal.
A medida suspendeu garantias constitucionais como a inviolabilidade do domicílio e das correspondências e abriu espaço para a atuação das Forças Armadas em ações de segurança. O cenário ocorre enquanto lideranças políticas e sociais relatam perseguição a opositores e criticam o avanço de práticas autoritárias no governo de Daniel Noboa.
Nesta segunda-feira (22), Equador e Estados Unidos firmaram um acordo de cooperação para operações na fronteira norte, com previsão de troca de informações e coordenação entre polícias e forças armadas dos dois países. A iniciativa começará como projeto-piloto na fronteira com a Colômbia e poderá ser estendida a outras áreas.
O acordo foi assinado uma semana após Noboa decretar novo estado de exceção por 60 dias em dez províncias, sob a justificativa de grave crise interna diante do aumento da criminalidade. No decreto publicado em 18 de junho, o presidente também reafirmou a tese de que o país vive um “conflito armado interno” e ampliou a proteção legal para agentes estatais, civis, militares e estrangeiros acusados de abusos em operações de repressão.
Organizações sociais e entidades de direitos humanos afirmam que a estratégia tem aprofundado o risco de violações. A Comissão de Pessoas Desaparecidas da ONU manifestou preocupação com relatos de desaparecimento forçado de 51 vítimas, entre elas crianças, em operações de segurança realizadas entre 2024 e 2025, principalmente nas províncias de Esmeraldas, Guayas e Los Ríos.
Apesar da ampliação do uso da força, a violência no país segue em alta. O Equador se tornou, nos últimos anos, um dos países mais violentos da América Latina, impulsionado pela disputa entre grupos criminosos e por sua posição estratégica no tráfico de cocaína produzida no Peru e na Colômbia para a América do Norte e a Europa.
Dados oficiais mostram que 2025 foi o ano mais violento da história equatoriana. Foram registrados 9.216 homicídios dolosos, alta de 30,5% em relação a 2024. Em 2018, o país contabilizava 996 casos. No período, o aumento chegou a 925%, colocando o Equador entre os dez países mais violentos do mundo.
Segundo a organização ACLED, mais de 70% da população equatoriana foi exposta à violência do crime organizado em 2025. A entidade também afirma que a política de militarização não produziu resultados efetivos contra as facções. O número de grupos criminosos ativos no país subiu de 24, em 2023, para 37 atualmente.
A crise de segurança levou o governo a adotar medidas semelhantes às do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, referência entre setores da direita latino-americana. Entre as ações estão a classificação de grupos criminosos como terroristas, o uso ostensivo das Forças Armadas e a abertura de uma megacárcere de segurança máxima em novembro de 2025.
A ofensiva estatal, porém, vem sendo acompanhada por denúncias de avanço do autoritarismo. Movimentos indígenas e sindicais afirmam que dirigentes críticos ao governo tiveram contas bancárias congeladas, em meio à tentativa de abrir um processo de revogação do mandato de Noboa, prevista na Constituição.
A principal força de oposição do país, Revolução Cidadã, ligada ao ex-presidente Rafael Correa, está com o registro eleitoral suspenso por nove meses e não deve disputar as eleições municipais de novembro de 2026. A legenda contesta a decisão e afirma ser alvo de perseguição política.
Há ainda relatos de prisões e restrições a direitos políticos de prefeitos e lideranças do campo progressista, incluindo o prefeito de Guayaquil, Aquiles Álvarez, preso em fevereiro de 2026 em uma investigação sobre lavagem de dinheiro ligada à venda ilegal de combustíveis. A defesa dele nega as acusações e atribui o caso a perseguição política.
Outro episódio que repercutiu no país foi o assassinato da ativista anticorrupção Monika Silva Koniuszek, de 41 anos, encontrada morta em sua casa em 8 de junho. Inicialmente, autoridades sugeriram suicídio, mas a perícia concluiu, na última sexta-feira (19), que houve assassinato, após golpe na cabeça e estrangulamento.
Conhecida por denunciar crimes ambientais e suspeitas de corrupção, Monika era uma voz crítica de interesses ligados ao poder. O caso reforçou a preocupação de organizações sociais com o ambiente de intimidação contra opositores e ativistas no país.




