Mola gestacional: entenda a condição que pode evoluir para câncer de placenta

## Mola gestacional pode evoluir para câncer de placenta e exige acompanhamento especializado

A terapeuta ocupacional Daiana Nascimento descobriu, há cerca de dois anos, que estava grávida após um período de tentativas. Poucos dias depois, no primeiro ultrassom, recebeu o diagnóstico de mola gestacional, nome popular da doença trofoblástica gestacional.

O quadro ocorre quando há uma falha na fertilização e se forma uma placenta anormal. Em parte dos casos, a condição pode evoluir para um tumor maligno na placenta. Foi o que aconteceu com Daiana, que precisou passar por tratamento oncológico.

A doença trofoblástica gestacional é considerada benigna inicialmente, mas pode levar ao câncer de placenta. A evolução maligna ocorre em menos de 5% das pacientes com mola parcial. Já nos casos de mola completa, o risco chega a cerca de 20%.

## Como a mola gestacional se forma

Na mola parcial, um óvulo normal é fecundado por dois espermatozoides ou por um espermatozoide com DNA duplicado. O resultado é uma placenta alterada e um embrião com anomalias genéticas incompatíveis com a vida.

Na mola completa, um óvulo sem DNA é fecundado por um espermatozoide com duplicação do material genético. Nesse caso, não há embrião, apenas uma placenta anormal.

Em ambas as situações, a gestação precisa ser interrompida e o tecido molar deve ser retirado. Sem tratamento, há risco de sangramento uterino e alterações na tireoide e na pressão arterial.

O câncer de placenta ocorre quando células da mola permanecem no organismo e se instalam no útero. Nos casos mais graves, pode haver metástase, principalmente nos pulmões.

## Incidência é maior no Brasil

Segundo dados apresentados pelo professor de obstetrícia Antônio Braga, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a mola gestacional atinge entre uma a cada 200 e uma a cada 400 gestantes no Brasil. Nos Estados Unidos, a proporção é de uma a cada mil. Na Inglaterra, de uma a cada duas mil.

As razões para essa diferença ainda são investigadas. Entre as hipóteses estudadas estão fatores genéticos, imunológicos e alimentares, mas não há conclusão definitiva.

Braga coordena o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da UFRJ, no Rio de Janeiro, considerado um dos principais centros do mundo em atendimento e pesquisa sobre a doença.

A unidade, vinculada à rede HU Brasil, atende cerca de 80 pacientes por semana pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Além de moradoras da capital fluminense, o serviço recebe mulheres de outros municípios do estado e também de outras unidades da federação. Aproximadamente 30% das pacientes têm plano de saúde, mas buscam tratamento no serviço público especializado.

## Diagnóstico e acompanhamento

Na maioria dos casos, a mola é identificada durante o ultrassom realizado após a confirmação da gravidez por exame de sangue ou urina. Muitas pacientes desconhecem a doença até receberem o diagnóstico.

A retirada da mola é feita por aspiração uterina. Depois do procedimento, o tecido passa por exame histopatológico para identificar se a mola é parcial ou completa.

O acompanhamento inclui consultas regulares e medição do HCG, hormônio produzido durante a gestação e usado como marcador da doença. Após a interrupção da gravidez, o esperado é que o nível do hormônio caia até se normalizar. Quando isso não acontece, há suspeita de evolução para câncer de placenta.

O tratamento do tumor maligno é feito com quimioterapia. Quando tratadas adequadamente, a maioria das pacientes se cura e pode engravidar novamente após o período de segurança indicado pela equipe médica.

Daiana concluiu as sessões de quimioterapia e teve normalização do HCG, indicativo de remissão da doença. Ela ainda precisa aguardar alguns meses antes de tentar uma nova gestação, porque um teste de gravidez positivo poderia dificultar a identificação de eventual retorno da doença.

## Histerectomia pode ser indicada em alguns casos

Em mulheres mais velhas, que já têm filhos ou não desejam engravidar novamente, a retirada cirúrgica do útero pode ser recomendada.

Esse foi o caso de Mônica Rosa do Amaral Pelizari, diagnosticada aos 45 anos após um abortamento espontâneo. Ela já tinha uma filha e desenvolveu câncer de placenta cerca de um mês depois da perda gestacional.

Mônica passou por histerectomia e quimioterapia entre 2018 e 2019. Após o tratamento, ficou curada, mas continua realizando consultas anuais no ambulatório para monitoramento da saúde e dos níveis hormonais.

## Apoio psicológico e social integra o tratamento

Além do atendimento médico, a Maternidade Escola da UFRJ oferece suporte social e psicológico às pacientes, além de atividades de acolhimento, como musicoterapia.

O acompanhamento é considerado importante porque o diagnóstico envolve a interrupção de uma gestação e, em alguns casos, a confirmação de câncer. O impacto costuma atingir também companheiros e familiares, que podem precisar de orientação para lidar com o processo.

Pacientes de fora da capital enfrentam ainda dificuldades logísticas e financeiras. Daiana, que mora em São Pedro da Aldeia, a 141 quilômetros do Rio de Janeiro, precisou se deslocar com frequência para consultas e sessões de quimioterapia. Ela utilizou transporte médico oferecido pelo município e, posteriormente, passou a contar com gratuidade em ônibus intermunicipais.

O acompanhamento pode durar pelo menos seis meses, mesmo nos casos sem evolução para câncer. Por isso, equipes especializadas recomendam que as pacientes tenham apoio familiar e sejam atendidas em centros de referência.

OUTRAS NOTÍCIAS

REDES SOCIAIS

6,749FãsCurtir
122SeguidoresSeguir
6,890InscritosInscrever
spot_img

VÍDEOS