Bloqueios de estradas na região de La Paz, capital da Bolívia, aumentam a pressão sobre o governo de Rodrigo Paz, que está no poder há seis meses. As mobilizações começaram após a promulgação da Lei 1.720, aprovada pelo Parlamento em março e sancionada pelo presidente em 10 de abril.
A norma permite a transformação de pequenas propriedades tituladas em propriedades médias, com acesso a crédito. O governo afirma que a medida busca estimular a produção agrícola e ajudar na recuperação da economia, afetada pela falta de dólares e pela crise cambial. Já movimentos indígenas e camponeses veem risco de desestruturação de terras coletivas e de perda de áreas para pequenos proprietários, que ficariam mais expostos à especulação e ao endividamento.
Os protestos começaram com a exigência de revogação da lei e ganharam apoio de professores, mineiros e outros setores. Em parte do país, as marchas já duram cerca de 30 dias e percorrem mais de 400 quilômetros até a capital. Hoje, milhares de manifestantes mantêm bloqueios em acessos a La Paz.
A Central Operária Boliviana convocou greve geral por tempo indeterminado e denuncia repressão policial e prisão de lideranças durante os atos. A entidade também reivindica aumento de 20% no salário mínimo.
No dia 12 de maio, o presidente revogou a Lei 1.720 e deu prazo de 60 dias para o Parlamento discutir uma nova proposta. A decisão, porém, não encerrou a crise. Representantes de organizações camponesas afirmam que a revogação não basta e cobram a elaboração de uma nova lei fundiária.
A tensão política se ampliou com acusações do governo de que parte dos líderes dos protestos teria ligação com o narcotráfico, além de suspeitas sobre a atuação do ex-presidente Evo Morales. Morales, por sua vez, nega envolvimento direto e afirma que os atos refletem insatisfação popular.
Paz também endureceu o discurso contra os manifestantes que pedem sua renúncia e afirmou que atos contra a democracia serão punidos. Em resposta, setores opositores acusam o governo de preparar uma agenda alinhada ao neoliberalismo e favorável a grandes grupos econômicos.
A crise social se agravou desde dezembro de 2025, quando o governo editou um decreto que retirava subsídios aos combustíveis. Diante das manifestações, a medida foi revista em janeiro, com a retomada do benefício para a gasolina.
Além da disputa em torno das terras e dos combustíveis, o governo criou uma comissão para estudar mudanças na Constituição Plurinacional e anunciou projetos para alterar regras sobre petróleo, gás, mineração, investimentos, sistema eleitoral, segurança nacional e o funcionamento do Judiciário. Também estão em discussão propostas de redução do tamanho do Estado.
Segundo a pesquisadora Alina Ribeiro, que estuda a Bolívia, o pacote de medidas enfrenta resistência em um cenário de forte insatisfação popular com preços altos, escassez de combustíveis e dificuldades econômicas que atingem o cotidiano da população.




