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sexta-feira, junho 5, 2026

Bolívia detém líderes de protestos em meio a apoio militar dos EUA

A Bolívia chegou nesta sexta-feira (5) ao 36º dia de protestos, com mais de 80 bloqueios em rodovias de diferentes regiões do país. As mobilizações ampliam a crise política que já levou à prisão de dirigentes sociais e aumentou a pressão sobre o governo do presidente Rodrigo Paz, que conta com apoio político do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth.

Organizações sociais bolivianas contestam as detenções e pedem a libertação dos presos. As autoridades imputam a alguns deles acusações como terrorismo e instigação pública para delinquir.

Entre os detidos estão a ex-senadora Simone Quispe, do MAS, partido de esquerda que governou a Bolívia por quase duas décadas, além de Justino Apaza, secretário executivo da Federação de Conselhos de Bairros de La Paz, e Yesenia Varga, dirigente camponesa de Cochabamba.

A Procuradoria também havia solicitado a prisão de outras lideranças, entre elas Vicente Salazar, ligado ao grupo Los Ponchos Rojos, e Mario Argollo, presidente da Central Operária da Bolívia, principal central sindical do país. Os dois pedidos, no entanto, foram revogados pela Justiça.

Os protestos contra o governo de direita de Rodrigo Paz já duram cinco semanas e pedem a renúncia do presidente, que está no poder há apenas seis meses, após quase 20 anos de administrações de esquerda. A mobilização reúne camponeses, indígenas, professores e mineiros.

O movimento começou em reação à má qualidade do combustível distribuído pelo governo, mas ganhou força depois da promulgação de uma lei sobre terras. Produtores rurais afirmam que a nova regra favorece o agronegócio e prejudica pequenos proprietários.

Os bloqueios têm provocado desabastecimento em várias partes do país, com falta de combustíveis, alimentos e medicamentos nas cidades afetadas. Segundo a Administradora Boliviana de Rodovias, havia 81 pontos de bloqueio registrados em diferentes departamentos, principalmente em torno de La Paz, além de Cochabamba, Potosí, Oruro, Santa Cruz e Chuquisaca.

O cenário segue instável e sem perspectiva de solução rápida, diante da continuidade das manifestações e da possibilidade de endurecimento da resposta oficial. A situação também ocorre em meio à tensão política entre o governo boliviano e os setores sociais mobilizados nas ruas.

Nos últimos dias, a prisão de Simone Quispe gerou novas críticas. Familiares dizem que a detenção ocorreu sem ordem judicial e de forma irregular. A Central Operária da Bolívia também protestou contra as novas prisões e afirmou que não aceita o retorno de práticas de perseguição contra lideranças sociais.

Ao mesmo tempo, o governo boliviano recebeu apoio público do secretário de Defesa dos EUA. Pete Hegseth afirmou que os Estados Unidos acompanham a situação no país e defendeu o combate ao que chamou de domínio narco-terrorista na região. O discurso reforça a aproximação entre Washington e o governo Paz.

Na avaliação de analistas, esse respaldo pode fortalecer a atuação das Forças Armadas na repressão aos bloqueios. Também há preocupação com a possibilidade de um eventual estado de exceção, que ampliaria os poderes do governo para conter os protestos.

A crise já provocou mudanças no alto escalão. No dia 2 de junho, renunciaram os ministros da Defesa, Marcelo Salinas, e da Educação, Beatriz García. Antes deles, em 21 de maio, deixou o cargo o ministro do Trabalho, Edgardo Morales.

A pasta da Defesa passou a ser comandada por Ernesto Justiniano, nome ligado à política de combate ao narcotráfico. Em maio, ele esteve nos Estados Unidos e participou do retorno da DEA à Bolívia, agência expulsa do país em 2008 durante o governo Evo Morales.

Enquanto isso, o Congresso boliviano derrubou a lei que limitava o estado de exceção e agora analisa uma nova proposta enviada pelo Executivo. O texto já foi aprovado no Senado e segue em debate na Câmara dos Deputados.

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