# Crise em Ceuta expõe divergências sobre atuação de Marrocos e pressão migratória
A chegada de mais de 50 mil migrantes a Ceuta, cidade espanhola localizada no norte da África, intensificou o debate internacional sobre a participação de Marrocos na crise. O fluxo registrado nos últimos dias deixou cerca de 100 mortos.
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil apresentaram avaliações distintas sobre a conduta do governo marroquino. Parte dos analistas considera que a travessia em grande escala não poderia ter ocorrido sem ao menos tolerância das autoridades de Rabat, diante do controle exercido pelo país sobre seu território.
A hipótese é associada, entre outros fatores, às tensões entre Marrocos e Espanha em torno do Saara Ocidental. O território é controlado por Marrocos, mas reivindicado pela Frente Polisário, apoiada pela Argélia. Embora o governo espanhol tenha reconhecido, em 2022, uma proposta marroquina para a região, movimentos políticos na Espanha seguem defendendo posições favoráveis à causa sarauí.
Também são apontados como possíveis elementos de atrito a recente visita do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez à Argélia e o avanço, no Congresso espanhol, de uma proposta para conceder nacionalidade a saarauis nascidos durante o período de administração espanhola, encerrado em 1976.
Outro grupo de analistas, no entanto, não identifica provas de que Marrocos tenha organizado o deslocamento. Essa avaliação relaciona o aumento das travessias à falta de oportunidades para jovens marroquinos, à alta do custo de vida e às dificuldades de acesso a serviços públicos, fatores que têm ampliado o interesse pela migração para a Europa.
Segundo informações divulgadas pelo jornal espanhol *El País*, os serviços de inteligência da Espanha concluíram que Marrocos não planejou a movimentação em massa. A apuração indica, porém, que as autoridades marroquinas teriam permitido o deslocamento de jovens e aproveitado politicamente uma crise já em andamento.
Ceuta e Melilla são cidades autônomas espanholas situadas em território africano e reivindicadas por Marrocos há décadas. Além do litígio territorial, ambas têm importância estratégica por sua proximidade com o Estreito de Gibraltar.
A crise atual ocorre após um episódio semelhante em 2021, quando mais de 10 mil pessoas entraram em Ceuta a partir de Marrocos. Naquele momento, a Espanha acusou Rabat de reduzir deliberadamente a fiscalização na fronteira.
Desta vez, o governo espanhol adotou tom diferente e informou que Marrocos tem colaborado para conter o fluxo e promover o retorno de migrantes em situação irregular. A maior parte das pessoas que entrou em Ceuta já teria voltado ao território marroquino, segundo autoridades espanholas.
A situação também passou a ser usada por grupos políticos europeus para defender regras mais rígidas contra a imigração. O governo de Donald Trump atribuiu o aumento da entrada irregular de migrantes na Europa a políticas adotadas pela Espanha.
No domingo (2), o governo marroquino se manifestou oficialmente pela primeira vez sobre os acontecimentos em Ceuta e Melilla. O Ministério do Interior do país atribuiu a crise à circulação de informações falsas nas redes sociais, que teriam criado a impressão de que seria possível entrar facilmente na Europa sem consequências legais.




