**Acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita amplia debate sobre política de Washington no Oriente Médio**
O acordo de cooperação nuclear anunciado por Estados Unidos e Arábia Saudita reacendeu questionamentos sobre a estratégia nuclear norte-americana no Oriente Médio. A parceria, prevista para durar décadas e movimentar bilhões de dólares, ainda não teve seus termos divulgados integralmente e deverá ser analisada pelo Congresso dos EUA.
O ponto mais sensível envolve a possibilidade de a Arábia Saudita avançar no enriquecimento de urânio, ainda que o programa seja apresentado como voltado a fins pacíficos. A medida ocorre em um momento em que Washington pressiona o Irã a encerrar suas atividades de enriquecimento, apesar de Teerã afirmar que seu programa nuclear não tem finalidade militar.
Após críticas de Israel, o presidente Donald Trump afirmou em redes sociais que a cooperação nuclear estaria condicionada à adesão saudita aos Acordos de Abraão. A declaração colocou incertezas sobre o futuro da negociação entre Washington e Riade.
Os Acordos de Abraão, promovidos durante o governo Trump, buscam normalizar as relações entre países árabes e Israel. A Arábia Saudita, porém, tem condicionado eventual adesão a garantias relacionadas à criação de um Estado palestino, ponto rejeitado pelo governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu.
A parceria também preocupa setores ligados ao controle de armas nucleares. A Arábia Saudita ainda não aceitou assinar um protocolo adicional com a Agência Internacional de Energia Atômica, mecanismo que permitiria inspeções-surpresa em instalações nucleares.
Outro ponto de atenção é o histórico de interesse saudita em desenvolver uma cadeia nuclear mais ampla, que incluiria desde a extração de urânio até o reprocessamento de combustível usado. Organizações que acompanham o tema avaliam que flexibilizar exigências de fiscalização pode enfraquecer a posição dos EUA em negociações com o Irã.
O príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, já indicou no passado que o país poderia buscar uma arma nuclear caso o Irã obtivesse uma. A declaração, feita em 2018, voltou a ser lembrada no contexto da nova negociação com Washington.
A Arábia Saudita é signatária do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que busca impedir a disseminação de armas atômicas. Ainda assim, a possibilidade de ampliar sua capacidade nuclear aumenta as incertezas em uma região marcada por rivalidades militares e disputas geopolíticas.
O acordo também contrasta com a postura dos Estados Unidos em relação à Coreia do Sul. Seul, que enfrenta tensões constantes com a Coreia do Norte, busca há décadas autorização para enriquecer urânio com apoio norte-americano. O país já opera 26 reatores nucleares, mas segue sem acesso a esse tipo de permissão por parte de Washington.
As negociações entre Estados Unidos e Arábia Saudita sobre cooperação nuclear começaram em 2008. Em 2020, o Escritório de Prestação de Contas do Governo dos EUA informou que não havia avanços significativos, principalmente por divergências sobre regras de não proliferação, inspeções internacionais e limites ao enriquecimento e reprocessamento de material nuclear.
Durante a administração de Joe Biden, as conversas continuaram travadas. Além das diferenças técnicas, a relação bilateral foi afetada pelo assassinato do jornalista saudita Jamal Khashoggi, morto no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. O caso provocou forte reação da opinião pública norte-americana contra o regime saudita.
O cenário mudou no segundo mandato de Donald Trump. Em novembro do ano passado, os dois países assinaram uma declaração conjunta sobre cooperação nuclear, sinalizando retomada das negociações.
O anúncio do acordo ocorre em meio à escalada da guerra no Oriente Médio. Dois dias antes, os houthis, do Iêmen, bloquearam a passagem de navios sauditas pelo Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho. A medida afetou as exportações sauditas, já pressionadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz.




