Especialistas apontam que a combinação entre a taxa básica de juros elevada no Brasil e os altos spreads bancários tem pressionado o orçamento das famílias e ampliado o endividamento no país. Esse cenário levou o governo federal a lançar nesta semana o Novo Desenrola, programa voltado à renegociação de dívidas.
O spread bancário é a diferença entre o custo que os bancos têm para captar recursos e o valor cobrado dos consumidores no crédito. Em março, essa margem ficou em 34,6 pontos percentuais, acima dos 29,7 pontos percentuais registrados no mesmo período do ano anterior. Para comparação, o Banco Mundial estima que a média global seja de cerca de 6 pontos percentuais.
No Brasil, a Selic segue em patamar elevado. Após a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central reduziu a taxa em 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. A autoridade monetária afirma que o nível atual é necessário para conter a inflação, enquanto críticos avaliam que o custo do crédito segue excessivamente alto.
Os dados também mostram um aumento consistente do endividamento das famílias. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o percentual de lares com dívidas chegou a 80% em abril, a maior marca da série histórica e o quarto avanço mensal seguido. Já a inadimplência ficou em 29,7%, em relativa estabilidade.
A situação é mais grave entre as famílias que recebem até três salários mínimos. Nesse grupo, 83,6% estão endividadas e 38,2% têm contas em atraso, de acordo com a CNC.
Em março, os bancos cobraram das pessoas físicas juros médios de 61% ao ano, segundo dados do Banco Central. Para empresas, a taxa média foi de 24% ao ano. No caso do rotativo do cartão de crédito, a cobrança pode superar 400% ao ano, uma das mais altas do sistema financeiro.
Levantamentos internacionais colocam o Brasil entre os líderes mundiais em spread bancário. Em comparação divulgada pela World Open Data, com dados de 2024, o país aparece na primeira posição do ranking global, à frente de República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.
A nova versão do Desenrola terá duração de 90 dias e prevê descontos que podem chegar a 90%, redução de juros e a possibilidade de uso do FGTS para abatimento de dívidas. O programa é voltado a famílias, estudantes e pequenos empreendedores.




