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terça-feira, fevereiro 24, 2026

Treinamento de enfermeiros em programa de saúde mental gera controvérsia

Em resposta ao crescimento da demanda por atendimento em saúde mental, um programa experimental vem sendo testado em cidades brasileiras para ampliar o cuidado na atenção primária do SUS.

Criado pela organização sem fins lucrativos ImpulsoGov, o Programa de Saúde Mental para Atenção Primária à Saúde (Proaps) está em fase piloto em Aracaju e Santos. A iniciativa capacita enfermeiros e agentes comunitários de saúde para oferecer acolhimento estruturado a pessoas com sintomas leves ou moderados de transtornos mentais, sob supervisão de psicólogos e psiquiatras da Rede de Atenção Psicossocial ou profissionais contratados pela entidade.

O projeto também teve início em São Caetano do Sul (SP), mas a prefeitura local encerrou a participação sem prestar explicações à reportagem.

Pesquisas apontam que a saúde mental é preocupação para 52% da população brasileira e que 43% relatam dificuldade de acesso a serviços por motivos de custo ou demora na rede pública. A metodologia do programa segue diretrizes da Organização Mundial da Saúde e do SUS, incluindo um curso teórico de 20 horas. Casos considerados graves são encaminhados para a rede especializada.

Os acordos para a capacitação foram firmados diretamente pelos municípios, que têm autonomia para implantar iniciativas de qualificação profissional.

Dados preliminares divulgados pela ImpulsoGov indicam redução média de 50% nos sintomas depressivos entre pacientes acompanhados pelo programa, além de impacto na diminuição das filas por atendimento especializado.

Entidades de classe e dados nacionais

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) manifestou preocupação com os limites da delegação de competências prevista no programa, ressaltando a existência do matriciamento — estratégia multiprofissional que integra saúde mental e atenção primária sem suprimir a atuação técnica de psicólogos e psiquiatras. O CFP defende investimentos estruturantes, como fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), ampliação de equipes e contratação de especialistas por meio de concursos.

Relatório do Boletim Radar SUS 2025 citado pelo conselho mostra que, entre 2010 e 2023, o número de psicólogos no país cresceu 160%, mas a proporção desses profissionais atuando no SUS diminuiu, acentuando desigualdades regionais, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) informou não ter tido conhecimento prévio do projeto. A entidade ressaltou que enfermeiros da Atenção Primária já recebem capacitação para lidar com casos leves e moderados e que casos graves devem ser encaminhados aos serviços especializados. O Cofen também apontou a necessidade de clarificar o conceito de supervisão no programa, dado que atividades privativas da enfermagem não deveriam ser supervisionadas por outras categorias profissionais.

Posição do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde ressaltou que estados e municípios têm autonomia para implementar iniciativas de qualificação profissional dentro do modelo tripartite do SUS. A pasta lembrou que o país possui uma das maiores redes públicas de saúde mental do mundo, com mais de 6,27 mil pontos de atenção, incluindo cerca de 3 mil Caps. Segundo o ministério, o investimento federal na área aumentou 70% entre 2023 e 2025, alcançando R$ 2,9 bilhões em 2025.

Resultados locais e projeto-piloto

Em Aracaju, o programa foi formalizado por acordo de cooperação técnica em 2024 e renovado até 2027. Vinte servidores de 14 unidades participaram da capacitação no ano passado, realizando 472 atendimentos iniciais, com mais da metade dos pacientes acessando o serviço pela primeira vez. Os primeiros resultados no município apontam redução média de 44% nos sintomas depressivos e melhora de quase 41% na percepção subjetiva do humor. A rede municipal dispõe atualmente de 28 psicólogos e cinco médicos de saúde mental, que atendem em torno de 1.950 pacientes por mês.

Em Santos, no litoral paulista, a implantação começou em outubro de 2025. Entre dezembro e janeiro foram registrados 314 atendimentos com base na nova metodologia. A prefeitura estuda ampliar a capacitação para mais profissionais da atenção primária, com objetivo de ampliar o acesso ao atendimento em saúde mental. A rede municipal de Santos conta com 127 especialistas (98 técnicos de nível superior e 29 médicos) distribuídos por 13 unidades, incluindo Centros de Atenção Psicossocial, serviços de reabilitação psicossocial e residências terapêuticas.

A Avaliação

Os resultados até agora são parciais e ainda em avaliação. O debate segue centrado entre a ampliação de capacidades na porta de entrada do SUS e a necessidade de garantir limites técnicos e estrutura adequada para a atuação de diferentes categorias profissionais na área de saúde mental.

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